Quando as regras já não se aplicam

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Uma das revistas que eu mais gosto e a única que eu tenho o trabalho de comprar, mandar procurar e guardar é a revista Porter. Pois bem! Em Abril deste ano eu pedi ao meu irmão para comprar a revista Porter que estaria disponível nas bancas até o dia dois de Junho do presente ano. Esta edição foi intitulada: Deusas Modernas e nas paginas da revista encontrei um artigo que chamou a minha atenção como muito poucos artigos têm conseguido chamar a minha atenção nos últimos tempos.

Era um artigo Escrito pela jornalista de renome e escritora Vanessa Grigoriadis que escreve para publicações como: a revista Rolling Stone, a revista Vanity Fair e para a Revista New York. Perguntada sobre quem ela acredita ser a maior Deusa de todos os tempos ela respondeu:
“Perséfone. Mesmo que ela tenha que viver no submundo por metade do ano, ela consegue passar tempo com os seus ancestrais que lá estão.”

IMG_5507Para a edição de Verão, a número 20 do ano de 2017 ela participou com uma entrevista— mais uma conversa do que uma entrevista, com a sua amiga de longa data, a escritora e autora Ariel Levy. Foi   uma conversa em sua casa na cidade de Nova York, Entitulado: “O Ponto de Vista da Ariel” que fala a cima de tudo do mais recente livro de Ariel, o livro de Memórias intitulado: The Rules do not Apply
Que em Português pode ser traduzido como: “As Regras não se Aplicam.”

Uma entrevista muito bem conduzida e esclarecedora e fascinante. Assim que acabei de ler quiz logo comprar o livro. E foi isso mesmo que eu fiz. Na entrevista a Ariel explica bem o seu ponto de vista e fala que achou necessário escrever sobre a sua experiência enquanto animal do sexo feminino. Só lendo o livro para compreender exatamente o que ela quiz dizer na entrevista. Sobre as experiências femininas, sobre a maternidade, sobre relacionamentos, sobre a sua opinião e ponto de vista politicos. Sobre sua sexualidade e sobre a sua carreira.

IMG_5503Sobre a mulher hoje, sobre como o papel que as mulheres desempenham hoje na sociedade se tornou simplesmente num acréscimo de tarefas e responsabilidades. O papel das mulheres mudou mas o dos homens não. As tarefas, responsabilidades e expectativas em cima das mulheres só aumentaram e para os homens não. Na entrevista a Ariel disse algo muito interessante; para ela nos casamentos de hoje, a mulher que tem a sua carreira e o seu trabalho, têm que contratar outras mulheres, quer seja para desempenhar o papel de cozinheira, cuidar da casa, tomar conta dos filhos. Os homens na sua maioria não passaram a dividir as tarefas com as mulheres nem a desempenhar o papel tradicionalmente “das mulheres”. Sim, as mulheres passaram a ocupar o papel dos maridos e a contratar outras mulheres para desempenharam as funções mais domesticas para que elas possam sair de casa e ter um vida fora do lar.

Na entrevista ela diz o seguinte:

Vanessa Grigoriadis: But it’s not only political – many women we know also feel that we are shouldering a lot of burdens at work and at home. We’ve got domestic chaos, too.
Ariel Levy: Pretty much everyone I’m close to is following an untraditional path. Many of my friends have taken on what was traditionally the role of a husband. They’re the breadwinners. But the men haven’t taken on what was traditionally the wife’s role. What I’m not seeing is men being like, “OK, you’re making the money, so I’m in charge of grocery shopping, laundry, childcare.” It’s not like men all of a sudden became the wife. The women has to then hire a wife, or several — a nanny, a cleaning lady, etc, etc. But none of my friends have traditional wives’ roles.

IMG_5500Sobre a escolha do título do seu livro, ela diz que as regras já não se aplicam porque hoje, a mulher que tem a sua independência financeira, a sua carreira. Esta livre para fazer da sua vida o que ela quiser e bem entender. Diferente das nossas mães ou avós. Hoje, graças ou movimento feminista, essa mulher pode correr atrás da  sua independência. Tem controle do seu corpo, pode ditar se quer ou não ter filhos, quantos filhos quer ter e até um certo ponto, em que altura quer te-los. As regras já não se aplicam porque ela pode literalmente ser e fazer o que quiser da sua vida.

VG: When you chose the title, The Rules Do Not Apply, what else were you thinking of?
AL: I was thinking about what it means to be a woman who is free to do whatever she chooses, which is what I always wanted to be. The rules that applied to our mothers — and their mothers — do not apply to us, largely because the feminist movement made it possible for us to pursue financial independence. If you’re my grandmother, and you’re entirely dependent on your husband’s income and you have five children that you didn’t necessarily want, you’re going to think about becoming in a totally different way than I was allowed to.
page: 165

Ela fala sobre assuntos considerados tabu. Fala sobre as ambições financeiras, sobre fertilidade depois dos 35, Aborto, Casamento gay e sobre o facto dela ter traído a sua mulher com um homem transsexual. E sim só isso basta para perceber que ela viveu experiências pouco comuns. Tudo isso só fez com que eu me debruçasse ainda mais sobre o livro pois, concordo com a Ariel e acho mais do que legítimo, e já era sem tempo que alguém falasse sobre as experiências femininas. Por que não falar sobre menstruação? Sobre o corpo feminino, sobre o desejo feminino, dar detalhes sobre o acto de parir e as implicações emocionais e psicológicas que isso tem para a mulher? Isso não é menos legítimo do que qualquer experiência masculina. Porque como diz a Ariel e muito bem, estas são as experiências de 50% da população mundial.

VG: You talk about a lot of things that are taboo for women to discuss – desiring money , late fertility, miscarriage, not only marrying a woman as a lesbian but having an affair with a trans man.
AL: Jane Austen wrote about the financial machinations of being a woman, so I don’t know that I’m so radical for exploring those particular challenges. But writing about being a female human animal in terms of birth, menstruation, menopause — everything to do with the female animal’s reproductive life — these have not been subjects in Literature.
And I think writing in an explicit and intense detail about the physical and emotional experience of pregnancy, the loss of a baby, and the aftermath of that, is a feminist project. “Wow, you’re going to write about the details of your miscarriage?“ Of course I am. It’s the most intense and transformative thing that’s ever happened to me. How is that less legitimate a subject for literature than war? Or anything else that’s a male pursuit?’

VG: Well its a domestic issue, and a personal issue.
AL: I think all that is just a way of saying its a part of the women’s sphere, so its not a legitimate thing to write about. But in some way or another, this is the the experience of half the human population. Not everyone’s going to lose a baby. But if you’re a female human, you will have some drama around menstruation, reproduction or menopause. Something will go on in that sphere that is a major part of your life, and it’s not written about and it ought to be. So, I’m pleased to address that stuff.

IMG_5500Mas, mais do que falar sobre a vida sexual da mulher per se, ela escolheu focar na vida reprodutiva da mulher, naquilo que acontece depois do sexo, nas consequências ou se preferir, no que vem depois do sexo.  No caso da Ariel foi o facto de ter engravidado e ter perdido o seu bebé e como ela se sentiu por causa disso.  Numa conversa com a escritora Maureen Dowd, a Maureen disse a ela algo que se costuma dizer na sabedoria popular:  “Não se pode ter tudo na vida” . Para a Ariel, não viver a maternidade representa não experimentar algo fundamental na vida. Mas isso faz parte da vida pois, enquanto que alguns têm a experiência da maternidade, outros nunca viveram um grande amor, outros têm um grande amor mas tao têm satisfação profissional. Não têm amigos de verdade.

“Todos nós temos os nossas decepções”, nossas amarguras. Para Ariel a sua maior tristeza e decepção até o momento foi a perda do seu filho. As coisas que não sairam conforme esperávamos. E como diz a Sheryl Sandberg no seu ultimo livro   Option B quando a vida não corre da forma como esperávamos temos que recorrer a Opção B. E é confortante saber que de uma forma ou de outra todos nós em algum aspecto das nossas vidas estamos a viver a opção b. A Ariel como muitas mulheres esperava ter o seu filho que hoje estaria com quatro anos. Mas não foi possível e a sua opção B é a sua carreira, o facto de estar a viver um grande amor.

VG: Instead of talking openly about your sex life, you were talking openly about your reproductive life.
AL: In the last 10 years, we’ve been over and over sex. When the Sex and the City ladies were on the cover of Time magazine in the 1990s, that was a big deal: “Oh my god, a show were women talk about sex!“ Four million TV shows and books later, it feels very dated, like a different era. I think the memo has gone out already that women care about sex. I’m talking about what comes after sex.

VG: When you asked Maureen Dowd (Author and new York Times Columnist) if she’d ever wanted children, she told you, “Everybody doesn’t get everything.“ Common wisdom is you can’t have it all.
AL: And you can’t. Women, men, whatever, everybody’s got disappointment. Whatever you choose means you haven’t chosen something else, and sometimes that’s going to hurt. Sheryl Sandberg has a new book coming out entitled Option B. What she’s saying is, her whole plan was that she was going to leaning in and married to the love of her life — and suddenly he had a coronary attack in his forties on a treadmill. He just died. And suddenly she’s living this other life, this option B, and the thing she’s saying in the book that I found strangely powerful — It’s just, everybody’s living option B to some extent. And that’s a comfort.
I think that everyone’s missing something that hurts. For me, now, it’s children. …
I said recently to someone that one of the things that made me really sad about not having any was that I felt that I was missing one of the fundamental experiences of life. And my friend said, “Well I’m not in love with my husband. I’m missing a fundamental experience, too.“
I think accepting that everybody is does’t get everything, that every choice has a cost, is what it means to grow up.

img_5475.jpgAriel limita-se a partilhar apenas a sua experiência e o seu ponto de vista. Ela foi sempre uma mulher que não tinha a maternidade como prioridade na vida. Aos 15 minutos do segundo tempo (com 38 anos) decidiu que queria sim ser mãe e viver esta experiência. Por estar casada na altura com uma pessoa do mesmo sexo, engravidou com o auxilio de um doador, mas infelizmente aos quase cinco meses (19 semanas) de gestação, durante uma visagem de trabalho para a Mongolia, no quarto do hotel aonde estava hospedada ela sentiu-se mal e acabou por dar a luz ao bebé na casa de banho sem auxilio de ninguém. Ela segurou o filho nos braços por alguns instantes e o perdeu logo em seguida.

“And then there was another person on the floor in front of me, moving his arms and legs, alive. I heard myself say out loud, “This can’t be good.“ But it looked good. My baby was as pretty as a seashell.
He was translucent and pink and very, very small, but he was flawless. His lovely lips were opening and closing, opening and closing, swallowing the new world. For a length of time I cannot delineate, I sat there, awestruck, transfixed. p.g: 144 Livro

Ela culpa-se, se questiona e por muito tempo não se conformou com o que aconteceu. Não bastasse a perda do bebé, logo depois deste episódio, a sua esposa pede o divorcio e o seu doador não aceita fazer uma nova tentativa para uma nova gravidez.

VG: When you were younger, saying, “ I don’t know if I want to have kids,“ do you feel where you’re sitting now, “I think I was fooling myself“?
AL: Here’s what I really think. I don’t think that I was mature enough… I also don’t think I thought I necessarily would be a good mother. … I honestly think it was much more about not feeling worthy of being a mom.
And I think that it’s a design flaw that at the very moment you’re finally getting mature enough that you might be equipped to be a decent parent, that’s where your body is like, “I’m out.“ And again, that’s part of of being a female human animal.

Hoje, quatro anos mais tarde ela conta que, mesmo achando que a natureza é cruel para as mulheres — já que nos concede tão pouco tempo para procriar. Ela diz que aprendeu a aceitar que nem sempre se pode ter tudo. Ela adora crianças mas não viveu a experiência da maternidade, mas tem os amigos e as amizades que construiu ao longo dos anos. Tem o seu trabalho e a sua carreira como escritora, coisas pelas quais ela sempre se esforçou e as quais sempre se dedicou.

Da morte, A perda do seu filho que foi o episódio mais trite que viveu, saiu algo bom. Ela manteve contacto com o médico que a atendeu na Mongolia, eles se aproximaram, se apaixonaram e hoje estão noivos.

page: 235 Revista
AL: “… Your life is exactly what it is and accepting that is a kind of freedom or that’s how it felt to me. That’s what I took from the past few years that I’m grateful for.“

No seu livro de memórias ela parece não deixar passar os detalhes mais desconfortáveis de fora. Ela conta tudo! E fui por isso que eu quiz ler o livro. Não para julgar e nem fazer comparações, mas para tentar compreender o quão diversas ou semelhantes as nossas experiências podem ser. O que chamou a minha atenção desde o inicio foi ver a maternidade ser colocada como uma decisão, uma escolha, uma opção e não como uma obrigação ou uma certeza.
Quando ela diz que as regras não se aplicam eu penso nisso: muitas das coisas que por séculos foram dadas como certas, inquestionáveis, hoje não são mais. As coisas mudaram, as pessoas também e hoje não podemos mais aplicar as mesmas regras e conceitos antiquados e não tem nada de errado nem de trágico nisto.

Mas o livro não aborda apenas a maternidade. Ela fala sobre a sua dinâmica familiar, sobre o adultério da sua mãe e como só mais tarde, já  adulta também ela se viu a trair a sua mulher. Foi aí que ela conseguiu entender melhor as escolhas e atitudes da sua mãe e por causa disso, deixar de julgar a sua mãe. Ela fala sobre os seus relacionamentos amorosos (um deles bastante doentio e obsessivo) com os seus altos e baixos.

Ela não se  coloca como vitima, nem tenta pintar a si mesma com cores mais brandas que a favoreçam. Ela é franca e verdadeira e isso é refrescante.

Uma mulher de verdade, falha!

IMG_5489 Ela conformou-se com a sua realidade e sabe que seria muito difícil, quase improvável conseguir engravidar a esta altura. Mas para mim o simples facto dela ter abordado o assunto ajuda a tirar o estigma e o peso que é colocado nas mulheres para que elas corram para não perderem o comboio da Maternidade. Homens e mulheres têm todo o direito de não querer ter filhos no auge da sua juventude, mesmo que não estejam preparados para lidar com as dificuldades de tentar engravidar mais tarde e mesmo que saibam que existe uma grande probabilidade de não conseguirem ter filhos mais tarde. Ainda assim não cabe a ninguém julgar as nossas decisões e escolhas. Não olho para a história da Ariel como um conto sobre o que não fazer, mas sim como um leque de possibilidades.

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