Luziela: Mulher, Feminista, Mulherista, Mãe, Historiadora, Angolana natural; Mas acima de tudo… alguém que aprendeu a viver a vida nos seus próprios termos.

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Nasceu em Luanda, aos 28 de Dezembro de 1981 a filha mais nova e a única menina dos seus pais. Aos sete anos saiu de Angola e só voltou permanente 19 anos depois. Do pai recebeu a educação, da mãe a disciplina. Sempre recebeu muito carinho de toda a família. Alias quem esteve presente no seu casamento provavelmente teve a oportunidade de testemunhar o quanto ela é o xodó do seu pai e casula da família Gaspar Martins.

Eu não sei bem como, onde nem quando nos conhecemos. Mas sei que em 2010 quando decidi cortar o meu cabelo e deixa-lo crescer completamente natural os nossos caminhos se cruzaram. Ela criou um grupo no facebook com o nome de Angolanas Naturais e eu fui uma das primeiras pessoas a ser adicionada ao grupo. conversamos varias vezes através das redes sociais, nos encontramos pessoalmente algumas outras vezes mas só sentamos para conversar de verdade no dia 23 de Agosto de 2015. Eu fiz o convite, ela aceitou e veio ao meu encontro de mente aberta e respondeu todas as minhas questões sem pestanejar.

Dois anos mais tarde eu voltei a ligar para ela para a segunda parte da nossa conversa. Novamente ela aceitou e desta vez eu fui ao encontro dela.

Quando sentamos para conversar pela primeira vez ela tinha acabado de casar e não tinha filhos. Hoje ela já esta casada a mais tempo. É mãe da menina mais simpáticas que já conheci mas que não nos dá a menor confiança se a sua mãe não estiver por perto.

Licenciada em Historia no Canada, terminou o seu curso no ano de 2007, na altura o pai  estava a trabalhar em Nova Iorque (aonde exerce o cargo de embaixador) e escolheu ir para lá para adquirir alguma experiência de trabalho. Posta em Nova Iorque e com a ajuda e influencia do pai, fez um estágio de seis meses na UNESCO e depois  fez um outro estágio na Missão Permanente de Angola nas Nações Unidas.

A diplomacia é algo com o qual eu sempre convivi. O meu pai era membro do governo mas mais do que membro do governo ele era diplomata. No trabalho e em casa. Nós fomos expostos a diplomacia e a vida da comunidade internacional desde a nossa tenra idade. Era natural e fácil para mim. Eu falo varias línguas, tenho uma facilidade de lidar com pessoas de outras culturas. A diplomacia era a profissão conveniente e adequada. 

Mas e porquê Historia algumas pessoas perguntaram? muitos acreditam que alguém que estuda historia deveria trabalhar como professor, historiador ou na área da cultura. Ela esclareceu que historia é muito importante para a carreira diplomática. Nos ajuda por exemplo a compreender porquê os países têm a relação que têm uns com os outros entre outras coisas.

Em 2008, depois de ter trabalhado por algum tempo com o seu pai decidiu voltar para Angola. Assim que chegou, participou de um concurso público para entrar para O Ministerio das Relações Exteriores; Passou, e em 2009 começou a trabalhar.

A sua experiência foi comum de uma jovem que estava ansiosa para aprender, dar o seu contributo e alguém que como qualquer jovem espera sempre mais. Os jovens dizem que deveriam ser melhor aproveitados e é correcto. Não dizemos isso como critica mas sim porque realmente queremos aprender. Eu faço um trabalho mais administrativo. Não somos expostos a uma carreira diplomática da forma como alguns de nós gostaríamos e acabamos por fazer paper work, um trabalho rotineiro. O trabalho que acabamos por fazer não puxa mais por nós, não é criativo, não fizemos pesquisas, não temos muito contacto com diplomatas de outros países. Esse tipo de exposição acaba por ficar apenas com os directores. Faço o meu trabalho com facilidade. Gosto do meu trabalho e isso me permite fazer outras coisas que eu gosto.

Hoje algum tempo depois, ela da graças por ter o trabalho que tem. E isso deve-se a maternidade.  A filha acaba de completar um aninho e a natureza do seu trabalho lhe permite estar mais tempo com ela do que se tivesse um outro tipo de trabalho. Gostaria que ter um emprego que lhe desse melhores condições mas está bem com o seu trabalho. Está numa boa fase. Gostaria de fazer outra coisa, algo na área das artes. O ideal seria conciliar as duas coisas, mas inda está a estudar essa possibilidade. Ter uma fonte adicional de renda mas que vá de encontro com  que procura.

Perguntei a ela quais foram as três melhores decisões que tomou na vida?

A primeira foi regressar para Angola  dos Estados Unidos. Estava lá com os meus pais e ficava com a sensação que estava a viver uma vida que não lhe pertencia (trabalhava no escritório do pai, filha do chefe) sentia que isso era um corta pernas. Ela conta que depois de ter saído do Canada, aonde vivia  sozinha e ter voltado para a casa dos pais, estar novamente sobre o controle dos pais foi complicado por isso ter decidido voltar para Luanda e começar a fazer a sua vida cá foi uma das melhores decisões que tomou.

A segunda foi ir fazer o mestrado com a duração de um ano, em 2009. Deu uma pausa na carreira para fazer o mestrado na Inglaterra  em Antropologia do desenvolvimento.

Gostei muito da experiência. Fui exposta a uma área acadêmica que hoje posso dizer que é a minha paixão. 

A terceira melhor decisão foi regressar para Angola em 2015. Neste ponto tivemos que recuar um pouco e pedi a ela para explicar o que aconteceu entre 2010, quando terminou o mestrado até 2015. Ela contou que depois de terminar o mestrado voltou para Angola em 2010. Trabalhou em Luanda entre 2010 e 2012. Em 2012 foi para Washington em missão de serviço e esteve lá entre 2012 à 2015.

Acho que as missões no exterior deveriam ser reservadas para pessoas com a vida montada. Ela conta que logo que chegou à Washington, entrou para o apartamento e viu as condições de vida que foram dadas pelo ministério, percebeu logo que aquilo, de longe não era o que tinha em Angola.  Aquelas eram as condições que gostaria de ter em Angola. Naquele momento percebeu que não ficaria ali por muito tempo. E mais uma vez  viu que não estava a viver a sua realidade. Aquela vida não lhe pertencia.

Pedi a ela para contar um pouco mais sobre o seu trabalho:

O trabalho nas relações exteriores está dividido da seguinte forma: As Áreas Geo-      políticas (estamos a falar de continentes) e Áreas de Apoio (estamos a falar de áreas de trabalho como protocolo). Ela trabalha na direcção Europa e trata da pasta da França. Tudo relacionado a França passa por si. Uma das coisa que gostou ao receber está pasta foi a possibilidade de voltar a por em pratica o seu francês que já estava a ficar enferrujado.

Para ela as três coisas mias importantes na vida de uma mulher: 

Primeiro ter algum nível de formação acadêmica. Para ela isso dá a mulher a liberdade de sonhar. A formação acadêmica que infelizmente ainda é um privilegio  — Sinto que quem não tem isso perde muito. A segunda coisa é o amor. Amor próprio e amor pelas outras pessoas. Isso nos permite sentir compaixão pelo outro.  A terceira coisa é a família e os amigos. Os meus amigos são a minha família e a minha família são os meus amigos. Não consigo separar as duas coisas.

É uma pessoa de poucos amigos, mas tem muitos amigos com quem convive. Tem um grupo de dez meninas com quem convide e conversa sobre tudo. Tenho uma melhor amiga mas também tenho outras muito boas amigas.

O quê da sentido a sua vida?

Gosto muito de paz de espirito. O que dá sentido a a sua vida é procurar  essa paz de espirito.

O que é Familia para si?

São as pessoas que independentemente do que estiver a acontecer estão aí para nos amparar. Família são as pessoas com quem sempre posso contar.

Considera-se uma pessoa responsável?

Eu acho que sou uma pessoa responsável, talvez sem os pés no chão. Sou uma pessoa muito sonhadora e como procuro sempre o lado positivo das coisas, idealizo  muito, mas quando preciso, volto para o chão e acabo por resolver as coisa de uma maneira sensata.

As suas paixões, amores na vida?

Música. Amo musica! As mulheres. adoro mulheres! As que dizem ser feministas e as não feministas. A natureza. Gosto de ver, observar e apreciar a forma como a natureza cria vida. 

E por falar em feminismo, qual é a sua definição de feminismo?

Alguém que é capaz de ver potencial em todas as mulheres e ver potencial na possibilidade de um relacionamento saudável entre homens e mulheres. No feminismo ela segue e apoia um segmento que em português pode ser traduzido como mulherismo. As mulheristas acreditam na parceria entre homens e mulheres. Está vertente do feminismo acredita que os homens são igualmente vitimas deste sistema opressor. As mulheristas dizem aos homens que eles podem chorar e as mulheres, que elas procurarem entender porquê estes homens choram. 

Seus medos e suas duvidas?

Já teve muito medo da morte, com o tempo aprendeu a focar mais no agora. Outro medo que teve foi sempre a insegurança de não ser suficiente: Não ser suficientemente boa, suficientemente inteligente. E perdeu isso focando mais no eu de agora. Saber que fez o melhor para aquele momento. O único medo que ainda não conquistou foi o medo de Cobras. Os outros já não são medos mas particularidades do seu caracter com os quais aprendeu a lidar.

Quais são as outras coisas que gosta de fazer fora do seu trabalho?

Ler sobre feminismo, estar com amigos, descobrir Angola. Saiu daqui com sete anos e quando regressou percebeu que não conhecia Angola.

Como foi a experiência de viver praticamente toda vida fora de Angola?

Aos sete anos, em 1989 foi para Costa do Marfim. Em 1995 foi para a Africa do Sul e lá ficou por três anos. Em 1998 foi para o Canada e lá permaneceu até 2007. De 2007 à 2008 Ficou nos Estados Unidos. Entre os colegas de trabalho logo que regressou era conhecida como a estrangeira ou como a branca. Não tinha receio de dizer o que achava que estava certo ou errado. Acho que isso deve- se a mistura de viver fora e a sua personalidade. Durante o tempo que vivi fora, não convivia com filhos de altos diplomatas mas sim com outras pessoas comuns. Era apenas uma pacata cidadã. Cá sou sempre vista como a filha de Ismael Gaspar Martins pela sociedade. Viver fora deu uma liberdade em termos da minha personalidade e conseguir me expressar.

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Casamento? 

Casei porque encontrei alguém com quem eu consigo me entender mesmo! Grande parte do nosso relacionamento foi à distancia (na fase que estava a trabalhar em Washington). Tal como com a diplomacia o meu relacionamento com o meu marido é algo muito fácil. Por isso é que eu me casei. A única coisa que muda é que o casamento é um papel que nos dá direitos. Uma união entre pessoas que querem estar e ficar juntos e isso nós queremos. E claro tem o AMOR. O amor!

A feminista não deixa de ser mulher, de querer ter filhos. Não quero te-los sozinha. Quero te-los com um companheiro  e com o apoio deste companheiro. Quero ter a presença da pessoa que vai estar e acordar comigo no meio da noite. O feminismo não diz que as mulheres não podem casar.

Quando perguntei a ela se o facto dos pais estarem casados até hoje influenciou de alguma forma nas suas escolhas e a forma como vê o casamento ela disse que sim. O relacionamento dos pais sempre influência. Se não for para mais nada ela contou que o casamento dos pais é um exemplo de convivência e perseverança. Mesmo estando casada a pouco tempo ela sabe que isso quer dizer muita coisa pois estar casado segundo ela não é fácil. Aprender a viver e conviver com uma outra pessoa requer tudo isso.

Eu olho para ela hoje na sua casa com o seu marido e a sua filha e concordo. Mas enquanto estive em sua casa tive a honra de presenciar algo fascinante; A Luziela mãe. E tenho que dizer que a sua aura emana maternidade. A seu mundo é a sua filha e a sua filha é o seu mundo. Não vou nem chamar ela de mãe babada porque acho que este termo seria pouco. Ela foi feita para a maternidade e na maternidade ela parece ter se encontrado.

Do que acha que as pessoas estão carentes hoje em dia?

As pessoas estão carentes de amor próprio. Aceitar a si mesmos e encontrar formas de conseguir viver  com as outras pessoas. Encontrar um meio termo. 

Qual é o seu contributo?

Não tento ser igual a outra pessoa. Eu só procuro ser eu mesma. Até na organização da minha festa de casamento eu perguntava o tempo todo porque eu tinha que fazer as mesmas coisas que os outros. Escolher os mesmo pratos que todas as outras pessoas. Demorei muito tempo para aprender quem eu sou e agora que eu sei e aceito quem eu sou não tem como ser como as outras pessoas. Hoje sei que é sim possível ser como nós queremos ser sem entrar em choques com os outros.

Quais são as suas prioridades hoje?

Manter-se satisfeita  em tudo e deixar de reclamar das coisas. Ver o lado bom das coisas. Cuidar de si. Do seu interior. 

 O que te inspira?

Tudo me inspira!

Ela contou que gosta da idea de viver num prédio e parar para observar as outras pessoas a viverem suas vidas. O seu dia-a-dia. Ou olhar de fora do prédio para os moradores do prédio e ver aquelas luzes todas acesas e observar como vivem as suas vidas.

Qualidades?

Ela falou da sua capacidade de dar passos para trás e evitar conflitos. Eu detesto discutir, eu não sei discutir. Outra qualidade que tem é que costuma dar o beneficio da duvida antes de julgar alguém. E finalmente ela disse que sabe se proteger. Admite ser aventureira mas só até um certo ponto. Sabe estabelecer limites. Já os outros ela acha que olha para ela e vêm uma mulher ambiciosa, inteligente e corajosa. E sim; Dá muitos bons conselhos.

Que legado você gostaria de deixar?

Que as pessoas olhem para mim como alguém que inspirou paz, soube acalmar ânimos.

O que você não tolera?

Infidelidade, machismo flagrante e mentiras. 

O que você diria as pessoas querem invalidar as suas conquistar porque você cresceu com privilégios que muitos na nossa sociedade não tiveram?

Ela não fugiu da raia. Disse logo que reconhece o seu privilegio. Reconheço os meus progenitores mas estou a forjar a minha própria vida. Teve sim acesso a muitas coisas, mas se esforçou e soube aproveitar as oportunidades.

Fui por um caminho diferente do esperado para a princesa Gaspar Martins e é aí aonde sinto-me feliz. 

Ela contou que várias vezes, principalmente no ambiente de trabalho, as pessoas apontam como ela não parece ser filha do embaixador e da Dona Lili. A sua resposta: Posso não parecer mas sou filha deles. Mas ainda assim sou eu mesma. Eu não sou aquilo que as pessoas projectaram e também não quero ser essa pessoa. 

E basta olhar para ela com atenção. Basta sair um pouco da superfície e olhar com calma para ver que estamos diante de alguém que realmente escolheu viver a vida nos seus próprios termos.

Que conselho você daria para alguém que quer seguir o seu caminho, ter um carreira, talvez na sua área?

Aprende quem tu és. Não procures ser o que as outras pessoas são. Lembre-se que você não sabe o que as outras pessoas fizeram ou fazem para estar e ser quem são.  Trabalha para o que queres ser 

E é assim que ela tem levado a sua vida. procurando ser ela mesma. Fazendo as coisas do seu jeito.

E por um breve momento a conversa também virou para a beleza e não me surpreendeu nem um pouco. Ela é simples e não usa nada que considera desnecessário.

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 A Luziela contou que usas poucas coisas, faz muitas alergias e tem uma rotina simples. Tem pouquíssimas coisas para o cabelo. Como faz alergia evita usar uma série de produtos.

Quer prova maior de como ela é realmente pratica aquilo que diz do que admitir que cortou todo o seu cabelo durante a gravides porque ela não queria ter que se preocupar com os cuidados com o cabelo durante os primeiros meses de vida da sua filha. Pois é mas ela cortou. Ela estava com o cabelo super longo mas cortou tudinho sem pensar duas vezes.

E faz todo o sentido que logo ela que começou com o movimento das Angolanas Naturais tenha realmente conseguido fechar o ciclo e mostrar que cumpriu aquilo que no fundo sempre foi o objectivo do movimento natural. A aceitação. Que cada um se aceite do jeito que é. Não se deixar pressionar pelas opiniões, preconceitos nem pelos padrões estéticos dos outros. Isso não serve só para o cabelo nem para para a maquiagem. serve para a vida.

Uma frase, um ditado um lema:

Vive e deixa viver. 

Não gosto de me meter com os outros e não gosto que metam-se na minha vida. 

Eu gosto da vida simples. Da vida que não me dá muita dor de cabeça.

Tem como não respeitar alguém assim?

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4 Comments Add yours

  1. gersonnaxu diz:

    Uma estrevista ou seja um zwela ( fala) muito bem conseguida, onde o lado endogeneo e exogeneo do ser ” ela mesma” apesar dos ”exteriotipos social” preconcebido a sua origem familiar…fica desnudada pelo âmago da pessoa que existe dentro de sua existência de resistir – ao gosto da natureza, de ver, observar a vida criada pela natureza! Em suma, a busca de uma identidade propria com inteligencia- do amor a paz da relação no seu todo….

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  2. Kizzy diz:

    Marcela adorei a entrevista! Conheci a Luziela, durante a minha participação nas Angolanas Naturais, e bebi um bocado da força do movimento, que na altura ajudou-me a encontrar o meu equilibrio! Sabia que estava na presença de uma mulher única, através do blog que Ela escrevia na altura! Conheci mulheres fantásticas e fiz boas amizades! Hoje aprendi um pouco mais sobre a Luziela, a quem desejo tudo de bom!

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    1. marceladeaguiar diz:

      Kizzy é muito bom saber disso minha querida.

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