Ler, Sempre!

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Uma das coisas que me pergunto é porque dedicamos tão pouco tempo a leitura? A  medida que vamos crescendo, Com exceção da leitura que fizemos para a escola, faculdade ou para o trabalho, começamos a ler cada vez menos.

Para muitos, o mês de Dezembro é também época de férias. Tempo estar em família e para relaxar e porque não? Para aproveitar e por a leitura em dia. As minhas recomendações para o mês de Dezembro são as seguintes: A Quinta de Animais (Animal Farm); uma fabula para adultos que mostra a fragilidade da nossa liberdade e a importância de educar um povo. Metade de um Sol Amarelo (Half of a Yellow Sun), uma estória de ficção que conta os relatos do que aconteceu em Biafra na Nigeria no entre essencialmente dois grupos étnicos Nigerianos no final dos anos 60 e início dos anos 70. Em meio a tudo isso temos mais do que uma história de conflito e guerra, temos também várias estórias de amor, relações inter-familiares e muito mais. O último livro Os irmãos Karamazov (Brothers Karamazov) que eu vou admitir desde já que ainda não conseguir ler até o fim, é uma obra e tanto. Nesta obra magnânima o escritor Russo  Dostoevsky escolhe o assassinato do patriarca de uma família para trazer a tona e nos fazer pensar na mente humana, nas grandes questões da vida e na nossa própria humanidade.

Estes três livros abriram mais uma vez os meus olhos para questões que sempre achei pertinentes. Questões que tratam de liberdade de expressão, questões como; saber quem deve e quem vai contar as nossas estórias, questões sociais, política, as grandes questões da vida, a  leitura, o gosto e o papel importantíssimo que a prática da leitura tem nas nossas vidas.

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Half of a Yellow Sun ou Metade de um Sol Amarelo da escritora Nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie fala sobre o que acontecei na Nigeria no final dos anos 60 inicio dos anos 70. Para alguns estes acontecimentos ficaram registrados com um guerra civil, para outros como um genocídio. O que é indiscutível é que milhões de Ibo foram mortos e numa obra de ficção que mais parece realidade, Chimamanda conta as estórias das pessoas que viveram esses momentos tão difíceis da historia da Nigeria.

O livre é importante porque toca num assunto que Chinua Achebe (escritor Nigeriano já falecido, que foi muitas vezes aclamado como sendo o pai da literatura Africana) já havia tocado que é o seguinte: Temos que ser nós africanos a registrar, a documentar, a escrever e a contar as nossas próprias historias. E isso tem que ser uma prática constante. Temos que saber discernir quais são as boas estórias e saber escrever e contar estas estórias, ao invés de relatar apenas e deixar que elas sejam engolidas pelo tempo.

Temos que contribuir. Temos que deixar a nossa contribuição, temos que escrever as nossas estórias de maneira profissional. Catalogar, investigar, pesquisar, registrar proteger. E isso só é possível se prestar-mos atenção naquilo que estamos a ler. Precisamos desenvolver e cultivar nas nossas crianças, adolescentes e jovens o gosto pela leitura. Porque só o contacto com textos de qualidades eles vão poder produzir qualidade. Temos que criar esta cultura, e temos que expor-los aos livros.

Em Metade de um Sol Amarelo, temos certamente uma estória de amor. Neste livro  Chimamanda fala muito mais sobre sexo do que em Amaricanah, mas não o faz de forma gratuita. O mundo que envolve os protagonistas da trama é académico, eles são literatos e intelectuais. A relação entre as classes e como eles interagem em tempos de paz e em tempos de conflito e de guerra. A questão da guerra (genocídio) em Biafra é pertinente e mais uma vez tem muito a ver com a forma como a historia é contada ou por quem a historia é contada.
Guerras são sempre devastadoras. As histórias de países e de povos devastados por guerras e conflitos militares precisam ser contadas com muito cuidado. Precisamos prestar mais atenção para aquilo que a guerra faz com as pessoas e principalmente com a humanidade do indivíduo:
A Morte, as perdas, dor, fome, sobrevivência, devastação, o sofrimento.
Conflitos arrastam-se. Quem sobrevive; o que fica com as pessoas, o que as pessoas perdem e não conseguem recuperar nunca mais. Em tempos de guerra o que é que cada pessoa faz, as escolhas que fizemos e como temos viver com elas depois?
Nós temos que contar as nossas estórias. Escrever as nossas estórias, e prestar muita atenção em como as nossas estórias são contadas e passadas à diante. E no nosso caso em particular aqui na África passar para as próximas gerações o que os mais velhos deixaram para nós.

Em Metade de um Sol Amarelo. Chimamanda coloca todos estes elementos. Mesmo sendo uma obra de ficção ela trás consegue trazer para a superfície aquela realidade. Faz com que o leitor, especialmente o leitor africano, reveja muito da sua historia na sua obra e assim consegue incutir, algo muito importante nos leitores.

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Outro livro que li nos últimos meses e me fez pensar muito a respeito do papel e da importância da pratica da leitura foi Animal Farm A Quinta de Animais de George Orwell. É um livro pequeno mas crucial para debater a importância não apenas de escolhas e ideologias políticas mas fala da importância de ter a cabeça aberta,  liberdade de escolha, conhecer os seus direitos e lutar para defende-los se for necessário, pensar por si só , na capacidade de raciocínio lógico e independente. Não se deixar dominar, nao seguir cegamente nem confiar segmente, porque um sistema político que parece um sonho se mal gerido pode se tornar tão o mais opressor do que outro.

Tenho que admitir que ler o prefácio deste livro teve uma grande influência sobre a forma como li e interpretei cada página. Também achei interessante porque como eu sabia disto eu percebi que enquanto estava a ler eu controlava e tentava perceber outras coisas. Felizmente eu consegui, mesmo que sobre grande pressão para interpretar o livro como um ataque e uma critica a Stalin e ao que aconteceu na Russia no meio do século passado. Eu olhei para o livro mais como um texto que fala mais sobre regimes utilitários e em geral. A fragilidade de ideias, o comportamento humano  e os seus vícios.
Socialismo ou animalismo como nos é pintado por George Orwell mostra que esta cheio de falhas. Mostra o perigo que é, confiar nos outros as nossas vidas, os nossos interesses, o nosso destino e nos mostra porque não devemos faze-lo.
A importância da educação do indivíduo e da sociedade, como quem não tem pode ser deixado ou passado para trás. Como é importante ter um registo das coisas porque ate o que esta escrito pode ser apagado ou escrito por cima. reescrita.
Cuidado com os espertalhões. Faça atenção e valorize a experiência. Saiba ser um bom observador, mas saiba que isso só não basta. É preciso saber o que fazer com isso.

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Os Irmãos Karamazov de Dostoyevsky é um dos textos literários mais difíceis sobre o qual tive que me debruçar nos últimos nos últimos tempos. Um livro difícil de ler, extremamente longo, daquelas que exige atenção e dedicação e o facto de estar a ler uma tradução do texto original em Russo não facilita em nada as coisas. Uma das leituras mais difíceis  que já tive em mãos em toda a minha vida.

A trama do livro gira em volta de um assassinato na família Karamazov. O pai é morto! O primogénito, Mitya, fruto do seu primeiro casamento, é um homem que passou por  sérios problemas com o pai e por isso mesmo esta no topo como o possível autor de parricídio. Ivan, o intelectual atormentado, que ao longo da estória é levado a uma crise de desequilíbrio mental é igualmente suspeito da morte do pai; Alyosha espiritualmente elevado aquele que tenta resolver os problemas emocionais da família também entra para a lista de suspeitos e por fim; Smerdyakov o meio irmão. Uma figura de  carácter duvidoso. Com o desenrolar da trama, a investigação e o julgamento do caso a verdadeira identidade do assassino é revelada e essa obra final e sombria de Dostoyevsky nos mostra um mundo aonde as linhas entre a inocência e a corrupção; O bem e o mal, misturam-se para testar a nossa fé na humanidade.

Por vezes a obra parece medonha, monstruosa até, mas sempre brilhante. O leitor mergulha num sórdido triângulo amoroso, numa obsessão patológica e num drama de roer as unhas.  Em meio a tudo o autor está em busca da verdade, a verdade sobre o ser humano, sobre a vida, e sobre a existência de Deus. Uma resposta aterrorizante para as grandes  questões. Essa obra monumental parece nos mostrar porque o nome de Dostoyevsky consta como o daquele que é talvez o maior novelista de todos os tempos.

Ler é um exercício. Temos que treinar um músculo. A prática precisa ser constante e precisa ser bem feita. Ler devidamente requer tempo, paciência e dedicação. Temos que abrir mão de outras distracções e embora seja sempre bom ler sem descreminar. Temos que saber a distinção entre as obras, entre obras que merecem um pouco mais de cuidado e atenção e obras que podem servir de mera distracção ou passa tempo. Das obras meramente decorativas as que requerem mais dedicação porque também foram compostas com mais atenção.

E tanto no blogue como em todas as minhas redes sociais eu quero incentivar as pessoas a dedicarem um pouco do seu tempo a leitura com conteúdo. Obras que não sejam meramente decorativas, mas que agreguem, conhecimento para as nossas vidas. E com isso vamos tocar numa discussão que considero pertinente: A discussão sobre as obras e textos literários aceites nos meios académicos, e que são respeitadas pelas autoridades literárias.

Faça Chuva faça sol. Com mais ou menos frequência, dedicação,  de bom gosto ou aos trancos e barrancos eu tento ter sempre um livro comigo e gosto de ler o máximo possível. Espero que gostem das recomendações e por favor, não parem de ler.

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Metade de um Sol Amarelo; A Quinta de Animais; Os Irmãos Karamazov

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