Tudo aquilo que queremos Ter/Ser: Carreira, Família, Vida Pessoal & Afectiva numa conversa de abrir os olhos com Ginga Cristóvão e Rolanda Machado

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Rolanda, Ginga & Marcela

Eu sou uma pessoa curiosa por natureza e para quem ainda não percebeu, eu tenho um interesse muito grande pelas estórias das pessoas. Tenho um verdadeiro fascínio em perceber o que move as pessoas e como cada uma delas constrói as suas estórias. Eu acredito que podemos aprender e muito uns com os outros e para mim uma das melhores formas de o fazer é tentando entender melhor as pessoas a nossa volta, e as suas estórias.

A esta altura do campeonato acho que 90% dos meus leitores sabem que a Ginga é a minha irmã mais velha. Uma das mulheres que eu mais amo na vida, uma mulher que eu respeito e que eu tenho como exemplo. Já a Rolanda é uma amiga querida, alguém que conheci depois de voltar da África do Sul. Eu tenho um grande respeito, admiração e carinho pela Rolanda porque com o passar dos anos ela consegue me encantar cada vez mais. Eu decidi juntar as duas para essa conversa porque elas partilham alguns traços que são valorizados e muito invejados na nossa sociedade. São mulheres bem resolvidas, independentes (financeira e emocionalmente), casadas e mães. A nossa conversa aconteceu no sábado, dia 18 de Junho de 2016 na cidade de Luanda. Ginga, Rolanda e Eu nos sentamos no final da manhã a volta de uma mesa de pequeno almoço para uma conversa daqueles. Elas partilharam de tudo um pouco e responderam a todas as minhas questões sem hesitar e eu espero que este post esteja a altura dessas duas mulheres.
Rolanda Machado (RM)
Ginga Cristóvão (GC)

Ginga Cristóvão: Nasceu aos 27 de Abril do ano de 1979, Formada em Economia, Trabalha por conta própria. Na altura da nossa entrevista estava a gerir cinco empresas diferentes, mãe de três rapazes, o mais velho estava com treze anos, o do meio com cinco e o mais novo com dois anos, casada oficialmente à pouco mais de dois anos. Entretanto já teve vários atropelos na vida.

GC: São três rapazes com caracteres muito fortes. Se tivesse que voltar atrás não faria diferente. Gosto muito de ter estes três rapazes. Apesar de tudo, de ter andado a procura de uma menina não trocaria nenhum dos seus rapazes para ter uma menina.
Gosta de estar casada. Não é fácil estar casada. É um desafio muito grande. Acho que é o maior desafio que há na vida depois de ser mãe. São duas pessoas, diferentes, que vêm de estruturas familiares diferentes. Temos que engolir respostas e muito mais para equilibrar a relação. Porque se não, se ficarmos a bater sempre de frente acabamos por não construir uma relação e ficamos sempre a trocar. Nunca construímos algo e não levamos uma vida a dois duradoura.

Rolanda Machado: Nasceu aos 20 de Dezembro do ano de 1977. No final do ano em que tivemos a nossa conversa fez trinta e nove anos. Ansiosa para fazer 40. Acho engraçado porque, quanto mais fica madura mais se sente dona de si e conhece quem realmente é. Casada à 16 anos. Casou-se aos 22. Tem dois filhos. Um rapaz de 16 e uma menina de quatro anos. É formada em Gestão de Empresas. Trabalha numa empresa aonde faz a gestão e participa na sociedade. Gestão e sociedade. Actua em várias áreas da empresa em âmbitos diferentes. Acho que o que a Ginga disse é verdade. É difícil ser uma mãe, mulher, profissional e ainda cuidar de nós. É um grande desafio! Especialmente nesta sociedade. Porque além dos desafios que a sociedade apresenta ainda estamos numa sociedade muito machista aonde quer queiramos ou não a mulher ainda encara muita coisa sozinha.

Em termos de personalidade. Gosta muito de inovação, gosta de paixão de criar. É divertida. Gosta de viajar mas  ao mesmo tempo é uma pessoa reservada.Nós, (Rolanda e eu) nos conhecemos através de um clube de leitura.

Gostei muito de ti porque acho que as personalidades deram certo. Acho que es uma pessoa que transmite paz. E eu procuro isso nas pessoas. Há aquelas pessoas com personalidades “draining” (que sugam as nossas energias). Acho que tens uma personalidade diferente. Criativa. Alguém que vai atrás das paixões e é uma pessoa que realmente inspira-me. Isso é quem eu sou.

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Marcela de Aguiar Cristóvão: Quando eram mais jovens imaginaram que hoje estariam aqui? A vida que têm hoje saiu do jeito que vocês esperavam?

GC: Eu acho isso interessante, porque eu acho que este é o tipo de conversa que as pessoas têm quase sempre. Principalmente no início do namora. Ah! Eu quero ter x filhos, eu quero casar ou não quero casar e tal. E… O Helder foi o meu segundo Namorado.

RM: Engraçado porque o meu marido também chama-se Helder.

GC: Vê-lá se não estamos casadas com o mesmo marido? Não, não estamos! (risos)
E eu tive um namorado antes que foi super bem, não tínhamos problemas maiores, o relacionamento foi super tranquilo mas nós éramos muito novos e eu por acaso nunca pensei em casar. Assim casar. Casar! Me imaginar com filhos e não sei o quê. Via as outras pessoas fazerem planos de como queriam casar, com um vestido assim….
Nunca foi essa a minha ideia de vida e lembro que logo no início do meu namoro com o Helder, o meu pai já estava a fazer planos de me casar num castelo e eu ficava a olhar para o meu pai e pensava que eu nem sequer sabia se iria ficar com esse moço. Se quero mesmo este moço? Vou lhe aceitar ainda como namorado e o meu pai já esta com estes planos todos.
Mas não. Nunca foi algo planeado!
Eu sempre quiz ter uma vida muito independente. Eu quando muito nova queria ser cabeleireira, depois o meu pai obrigou-me a estudar economia e eu desisti completamente daquilo. O que quer dizer que não era bem aquilo que eu realmente queria fazer porque se fosse eu não teria desistido tão facilmente. Depois pensava em fazer alguma coisa, mas sempre algo muito independente.

Nunca tive algo fixo do que eu faria ou seria quando fosse grande. Acho isso uma pergunta muito interessante porque eu faço esta pergunta aos meus filhos hoje, mas entretanto eu própria nunca soube numa tenra idade o que é que eu queria ser ou fazer. E acho que muita coisa da minha vida foi acontecendo. O Helder apareceu na minha vida, um ou dois anos depois eu fiquei grávida e tive um filho com o Helder. Como já tinha acabado de estudar e como a Sonangol pagou a minha bolsa de estudos fui trabalhar para a Sonangol. No princípio estava bem inspirada mais depois de alguns anos dei conta que não era bem aquilo que eu queria fazer mas também não sabia o que eu queria fazer. Então estava lá na Sonangol mas aborrecia-me e chateava-me porque não era aquilo, eu não me identificava com aquele trabalho. Mas eu tinha que dar de comer ao meu filho e então continuava naquele trabalho. E depois com o tempo finalmente ganhei coragem e decidi deixar a Sonangol.
Mas neste meio tempo algumas coisas aconteceram. O seu relacionamento acabou. A sua vida seguiu a diante. Teve outros relacionamentos, os anos passaram, casou mas depois de algum tempo percebeu que não estava a dar certo e pos um fim ao casamento. Enfim, seguiu em frente com a sua vida.
Depois de vários anos na Sonangol recebeu uma proposta para fazer um mestrado na Itália. Aceitou. Fez o seu mestrado, reencontrou o Helder desta vez já ele e ela tinham sido casados, e curiosamente nenhum deles teve outros filhos com as pessoas com quem se relacionaram. Acabou o seu Mestrado. Ficou grávida do segundo filho de depois de algum tempo saiu da Sonangol e foi trabalhar para o ministério das finanças. Algo de não demorou muito tempo pois ela percebeu que o que queria também não estava ali.

Hoje no que eu trabalho nunca foi aquilo que eu alguma vez pensei em trabalhar. Mas a medida em que eu vou amadurecendo e, por isso é que eu adoro os trinta. Eu não gostaria de ter vinte anos novamente é uma idade de muita insegurança. Uma idade que não da para nada! Hoje aos trinta quando eu vejo a minha vida eu já sei o que é que eu quero fazer. Eu já sei o que eu aceito, o que eu não aceito. Quais são os meus desejos na vida.
Hoje por exemplo eu que nunca pensei em ter filhos, se eu tivesse espreitado o meu futuro quando tinha 18-19 anos. Hoje eu acho que faria uns oito filhos. Mas já não dá. Já não vou a tempo.
Então para responder a pergunta eu não imaginei fazer o que estou a fazer. Hoje eu faço entre outras coisas: Eu faço algumas coisas que eu me pergunto se eu quero continuar a fazer. Sei que algumas coisas dentre as que faço eventualmente vou deixar de fazer. Eu descobri duas paixões que não tinham nada a ver comigo porque eu considero-me uma mulher viajada, gosto das grandes metrópoles: Paris, Londres, Nova Iorque. Sei que é cliché mas eu gosto.
Mas eu descobri uma vertente diferente no campo en termos da nossa fazenda ( Fazenda União) Eu gosto de estar lá. Gosto de ir para lá. Não vejo a hora de estar lá, sempre que lá vou é uma ansiedade. Não tenho preguiça de lá ir. E as Biditas que é um projecto que começou de uma ideia muito simples.
Entretanto eu fui criando outras coisas, e me engajei em várias outras coisas muitas delas por outros compromissos, pela busca de uma recompensa financeira.
E então o que eu estou a descobrir é que pelas Biditas e pela Fazenda estou a desenvolver uma real paixão. E se calhar esta é a minha paixão que eu não pensei que existia porque eu nunca me preocupei em saber e as outras coisas fui fazendo porque eu queria de certa forma ter um ganho monetário, acabam por ser coisas que eu pondero se quero continuar a fazer ou dar a outras pessoas para assumir, para gerir e eu posso me concentrar naquilo que realmente me interessa.

RM: Eu confesso que é uma pergunta interessante. Se Olhar para trás, em termos profissionais sim. Sou muito ambiciosa porque quero ir para além. Uma coisa que eu gosto muito é ser Business Woman Executive. Isso faz parte de mim. Eu vejo aquela conjuntura da Oprah e da Hali Berry e para mim gestão, negócios, gerir, faz parte de mim.
Agora em termos de família. O Helder meu marido, o tratamos por Nuno em família, nos conhecemos e dois anos depois estávamos casados. Mas eu confesso que nunca fui a pessoa que pensava, ou sonhava em casar. Todos os namoros que eu tive os homens eram sempre os que diziam que vais ser a minha mulher, vamos casar mas nunca foi uma coisa minha.
Aos 22 anos engravidei, casei. Em termos familiares acho que foi Deus quem organizou as coisas. Não foi algo que eu programei. As coisas foram-me dadas. Tive o meu primeiro filho e à quatro anos atrás tive a minha filha. E se penso se nesta fase estaria assim; claro que iria me imaginar casada e com filhos, a trabalhar da forma que trabalho. Mas nunca ia imaginar que as coisas iam acontecer da forma como aconteceram. Em ternos de casamento e filhos. Eu era muito jovem. Foi duro, foi difícil e hoje não voltaria para trás porque a Rolanda que eu sou hoje é muito diferente porque eu estou naquela fase como disse a Ginga em que eu já sei o que quero.

Tudo na vida tem a sua estação. Tudo aquilo que plantei lá atrás, estou a colher hoje. A família é uma coisa bonita. Mas eu cuido de tudo eu tenho os meus filhos para cuidar, tenho que cuidar das roupas dos filhos, luz, água, pagar os empregados, se a empregada não for trabalhar sou eu que tem que resolver o que fazer e por isso chegou a um ponto que eu tive que tomar as rédeas das coisas.

Ela conta que decidiu assumir o comando e tomar completamente as medias da sua vida e organizar a sua vida para ter mais qualidade de vida e para não perder o controle das cosias. A primeira coisa que fez foi se concentrar a sua espiritualidade e realmente caminhar com Cristo, e aceitar Cristo como o seu salvador. Antes ela se preocupou sempre com as coisas e com as pessoas a sua volta, como o marido, os filhos e esquecia-se dela própria e isso por um tempo a levou a uma certa depressão.

Então como ela é uma pessoa que gosta de planear, de organizar, foi isso que fez. O seu dia começa as 05:00 chega a casa as 18:00 e vai para cama as 09:00  e até isso tem que por na sua agenda diária. Ela conta que organiza a sua casa como uma empresa aonde ela é a chefe e os seus filhos os seus funcionários.  Pode parecer estranho mas ela diz que sente que precisa controlar os seus filhos, precisa dar sim o carinho, passar tempo com eles mas ela também tem que disciplina-los. Até um menu semanal para pequeno almoço, almoço e jantar. Para não correr o risco das empregadas fazerem algo que o marido não gosta.

Faz as compras de acordo com as suas necessidades. Organiza a casa, que é uma das suas paixões, tem um lugar para chaves para ninguém em casa ter que ficar a procurar logo cedo pela manhã e percebe que desta maneira tem mais paz. E claro tem o seu tempo com Deus logo pela manhã que é a coisa que à fortalece. Logo pela manhã antes do marido e dos filhos levantarem antes de ter que enfrentar o dia ela fala com Deus, pede e agradece pelo que tem e pelo que vai ter que enfrentar.

GC:  Eu nunca pedi a Deus por nada, nem nos meus momentos mais difíceis. Eu vou ter com Deus para agradecer.  Mas uma das coisas que estive a pensar nas últimas semanas é que talvez eu deveria ter alguma coisa para além disso. Algo espiritual para me ajudar no meio de tantos desafios, e com a minha vida tão atarefada. Acho que preciso disso para me trazer paz. Para parar,  analisar e estar no momento.

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Marcela de Aguiar Cristóvão: Vocês acham que escolheram ter a vida que têm? Com tantos compromissos, sempre tão cheias de coisas? Porque muitas pessoas têm vidas mais tranquilas, nem todas as mulheres na nossa sociedade trabalham, Nem todas as mulheres lutam para forjar uma carreira e ganhar tanto ou mais que os seus parceiros.

GC: Eu não quero ser tratada como os homens, eu quero ser tratada melhor do que os homens. Eu gostaria sim de poder não fazer nada, de ter uma casa luxuosa, viajar, ficar em casa e tomar conta dos filhos e tudo mais. Mas para mim não foi uma escolha e até hoje não é uma escolha. Talvez se as coisas tivessem sido diferentes para mim quando eu era mais nova eu não teria esta postura hoje. Mas eu me apercebi quando tinha acabado de me formar e descobri que estava grávida do meu primeiro filho. Eu percebi que se eu não trabalhasse, se não fosse atrás das coisas para o meu filho, ele não teria ninguém para dar a ele as coisa que eu acredito que o meu filho merece ter.  Por isso não foi uma escolha. Eu tinha que!  Eu fui atrás porque tinha que pagar a creche, a escola, o leite, as viagens do meu filho. Eu tinha que tomar conta dele e eu descobri isso muito nova. E sim eu tenho amigas e conheço mulheres que não trabalham e não são independentes financeiramente. Mas porque eu passei por coisas muito difíceis eu hoje nem sequer consigo entreter a ideia de depender de outra pessoa para fazer tudo por mim. Porque eu sei que está pessoa pode partir a qualquer momento. Pode me deixar, pode morrer, pode pedir o divorcio, pode ficar a fazer joguinhos se quiser,  já que o dinheiro é dele. E se isso acontecer o que é que eu sou suposta fazer? Ir trabalhar num restaurante, fazer um trabalho manual, que talvez não vai me dar as condições que eu quero e acho que posso e mereço ter? Não!

Agora a quantidade de trabalho o número de coisas que tenho no meu prato, isso sim eu posso escolher. Posso me concentrar em fazer as coisas que eu gosto e deixar o resto de parte. Ser mais selectiva. E para as mulheres que ficam em casa a tomar conta dos filhos e do marido que paga todas as suas contas, se elas estão felizes assim mais poder para elas.

RM: Eu sei quem eu sou e o que eu quero para a minha vida. Nós estamos nesta mundo de passagem. Eu não me preocupo com a opinião dos outros, com o que os outros pensam ou dizem.  Eu estou cansada de viver a vida para os outros. Se a outra mulher  quer estar em casa com os filhos eu respeito. Talvez seja esse o seu propósito na vida.

No passado, os pais tinham muita autoridade e influencia sobre as nossas vidas. Eu fiquei grávida muito cedo e casei logo. Passei por momentos de muita provação. Passei por momentos difíceis com o meu marido. Mas hoje estou a colher os frutos de tudo aquilo que plantei durante todos estes anos. Eu hoje olho para a minha família e vejo algo lindo.

Tudo na vida tem a sua estação. Sei que não devo comparar a minha vida com a dos outros. Tem dias mais difíceis. Tem momentos em que ser mãe é uma chatice mas isso é passageiro e não é a minha vida.

GC: Tem dias em que queremos ter a vida das outras pessoas, gostarias que as coisas fossem mais fácies, gostariamos de ter um marido rico como um Rupert Murdock.  Mas depois paro e penso que eu não sei o que realmente se passa na vida privada destas pessoas. Estamos sempre a olhar de fora.

RM: Todas as pessoas na vida têm os seus desafios. Se não fosse assim não teríamos pessoas ricas e famosas a irem para as drogas, para o alcoolismo, a se suicidarem e é por isso que eu parei de olhar apenas para o exterior. Até por isso eu hoje uso menos maquiagem. Claro que quando me apetece eu me maquio, e uso cores, mas eu estou mais preocupada em cuidar mais da minha pele, da minha saúde, do meu bem estar. Participo de um grupo na igreja e quero fazer parte da solução e não do problema. Temos que descobrir quem nós somos. Encontrar boas amizades, fazer coisas diferentes, crescer, evoluir. Em Angola é um desafio mas ainda assim temos que fazer isso.

GC: Eu estava a pensar sobre isso. Sobre escolhas, se tenho ou não que fazer mais. Mas estava a falar com alguém recentemente e nós nos apercebemos durante o funeral de alguém que conhecíamos, alguém que morreu muito jovem. Ao ouvir o eulogio fúnebre. E foi triste saber que esta pessoa tinha morrido muito jovem. Mas fora os filhos, o marido e as pessoas mais próximas que a conheceram ninguém mais vai se lembrar desta pessoa depois de alguns anos. Mas existem pessoas que deixam algo. Um legado que esse sim vai ser imortal. O meu filho do meio ouve Michael Jackson e para ele o Michael está vivo porque as suas obras estão vivas. Neste Momento eu percebi que eu não quero passar por esse mundo e ter sido apenas Ginga a filha de, mãe de mulher de e irmã de… Eu preciso que seja mais e foi aí que se tornou uma escolha para mim. Para fazer diferente e deixar algo. E não estou a falar necessariamente de dinheiro. Contribuir, deixar algo, deixar um legado.  Eu  escolho trabalhar um pouco mais e não estar sempre presente para por os meus filhos para po-los a dormir todas as noites ou estar com eles o tempo todo. Mas eu acredito que eles vão beneficiar, não acho que não sou boa mãe porque não passo todas as horas do dia com os meus filhos a fazer todas as tarefas da escola com eles.

RM: Não tente ser como o outro. Trabalhe para ser o melhor que você pode ser. A sua a melhor versão.

Marcela de Aguiar Cristóvão: Mas como vocês, outras pessoas tiveram uma formação, mas nem todas parecem avançar na vida profissional. O que vocês acham, fez com que vocês conseguissem avançar na vida? Porquê nem todas as pessoas estão a conseguir progredir?

GC: Sem querer ser or parecer pretensiosa. Eu acho que é esta a diferença entre as pessoas que fazem algo das suas vidas e as pessoas que não avançam.  Eu já fui esta pessoa. Durante muitos anos a Sonangol foi uma grande escola para mim. Eu aprendi muito lá e estar ali e aquele trabalho me deu a possibilidade de sustentar o meu filho,   mas depois de alguns anos eu senti que estagnei. Eu recebi uma proposta para ir fazer o mestrado na Itália e eu fui mas ainda assim, depois de ter feito o mestrado e ter regressado aquela sensação não passou. Eu comecei a reflectir e eu olhava para mim; Uma pessoa que teve a oportunidade de estudar fora, que conhecia o mundo, que fala várias línguas, já tinha visto tanto. Mas estava naquele trabalho que me dizia que eu não era melhor do que uma simples técnica. Que não seria capaz de fazer melhor do que aquilo porque a estrutura daquela empresa era tal que não me permitia avançar e chegou a um ponto  em que eu atingi o meu limite. Eles estavam dispostos a aumentar o meu salário mas isso já não importava mais. Eu percebi que eu tinha que mudar. Eu decidi mudar. E eu digo que eu tive muito medo. Medo do desconhecido.

No princípio foi muito difícil.  Acho que só quatro anos depois é que eu comecei a relaxar. Quando estivesse a se aproximar a altura de pagar os salários e eu sabia que ainda não tinha dinheiro suficiente para pagar os salários eu não dormia.  Eu ficava acordada no meio da noite e o meu marido olhava para mim e perguntava porque eu estava acordada de madrugada e eu olhava para ele e dizia: porque em breve tenho que pagar salários e ainda não tenho dinheiro suficiente para pagar os salários. Eu hoje posso dizer que quando andamos com os lobos e percebemos que temos a capacidade de sobreviver descobrimos que temos tanta força dentro de nós. Nós somos fortes mas acabamos por escolher o conforto, muitas vezes escolhemos nos acomodar porque sim muitas vezes é mais fácil.  Recentemente estive com umas amigas que não via a algum tempo e elas estavam a perguntar por onde eu andava e o que estava a fazer eu fui contando tudo o que se estava a fazer e o que tinha se passado na minha vida nos últimos anos e quando acabei de dizer todas as coisas que estava a fazer percebi que elas pareciam estar abismadas, espantadas.

RM: Nós todos temos talentos e todos temos dons e muitas vezes nos sentimos confortáveis e não vamos atrás daquilo que nos leva aonde temos que estar. Por vezes temos que nos sentir desconfortáveis aonde estamos para nos mover, levar aonde somos supostos estar.

Eu trabalhei treze anos numa empresa fiz um pouco de tudo, trabalho administrativo, vistos, contabilidade etc.  Mas cheguei a um ponto em que percebi que aquilo já não estava a me levar a lado nenhum. Mas quando cheguei a este ponto também percebi que em Angola as pessoas não acreditam em assinar os seus nomes. Fazer as coisas bem feitas ou então não fazer. As coisas são ou estão assim hoje mas amanhã estarão melhores e hoje eu tenho que fazer o melhor possível com as condições que tenho.

O nosso sucesso depende de nós e dos outros. Fazer bem o meu trabalho porque as coisas estão interligadas. Acho que muitas empresas têm um problema na forma como estão organizadas. Muitas vezes os funcionários sente-se incapazes de progredir de contribuir e até de crescer e isso muitas vezes desmotiva as pessoas e as impede de crescer de ir mais além.  Nós estamos muito longe de grandes metrópoles como Londres por exemplo ande se eu for a um bar e pedir um copo de água, muito provavelmente a pessoa a servir vai trazer um guardanapo. Vai perguntar se eu quero gelo ou não, vai me oferecer um bolinho, perguntar se eu quero mais alguma coisa, vai sorrir para mim e me dizer para ficar à vontade se eu estou bem e cá temos muitas lacunas até nesta área (atendimento ao cliente)

Eu olho para Angola com dor, mesmo,  porque eu terminei o liceu no sistema britânico e depois fiz o ensino superior cá em Angola na Universidade Lusíadas depois de ter ficado grávida e eu digo-te que nas provas finais quase a turma inteira estava pronta e queria cabular. As pessoas querem as coisas fácies. Não pensam que o conhecimento é poder!

Eles nem sequer percebem que não são eles quem estão a perder. Eles estão a burlar o seu próprio destino. A eles mesmos.

Acho que muitas vezes a pessoas comportam-se em conformidade com o sistema estabelecido, porque também temos pessoas que viajam, pessoas que foram criadas com a mente aberta, que sempre lhes foi incentivado raciocinar e muitas delas progridem, mudam, mas muitas pessoas também são preguiçosas e não querem fazer mais.

Mas eu estou ciente de que mesmo tendo condições, eu posso viajar, tenho pessoas a trabalharem para mim em minha casa, tenho um gerador e água corrente em casa e vários outros privilégios mas ainda assim eu fico cansada e tenho que ir buscar motivação para continuar e penso naquelas pessoas que não têm as mínimas condições, como será que elas sobrevivem, de onde vão buscar motivação. Como podem elas contribuir de alguma forma para a sociedade? O Sistema tornou as coisas tão difíceis para elas.

Os guardas por exemplo, muitos ganham 30.000 kwanzas ou menos e com tantas outras dificuldades. Será que podemos realmente exigir tanto assim destas pessoas?

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Marcela de Aguiar Cristóvão: Eu acho que muito disso tem a ver com o que queremos ser e aonde queremos chegar. Mesmo sendo secretaria do lar ou varredor de rua eu tenho que fazer o melhor trabalho possível, lutar para ser reconhecida, e crescer nesta área para sobressair. E tenho que fazer isso porque a alternativa é ficar aonde estou. É não crescer. Não progredir.

RM: Eu acho que sim eu acho que as pessoas têm que perceber que esta tudo interligado. As pessoas têm que fazer as coisas e assinar o seu nome quando as fazem. O que fazemos é a nossa paixão. Algumas pessoas sentem-se sim agredidas pelo sucesso, talento ou competência de outras na nossa sociedade e muitas tentam por barreiras e algumas não têm oportunidades, mas também tem a ver com assumir riscos.  Nos temos uma cultura negativa e muito conformista. Somos constantemente desencorajados. Já na cultura inglesa eu lembro das mães das minhas colegas encorajarem mais: Vai em frente, tenta, experimenta, se você cair levanta e tenta de novo, faz isso faz aquilo, vai em frente, força!

Hoje por exemplo quando eu sei que a minha família vai achar uma decisão minha mais aventureira ou muito diferente eu deixo para contar só no final, quando a coisa já estiver certa. Eu por exemplo já peguei e fui viajar para a Thailandia só com um grupo de amigas. deixei os meus filhos cá e fui cuidar de mim.

Marcela de Aguiar Cristóvão: O casamento na nossa cultura, O papel dos vossos maridos nas vidas e naquilo que vocês conseguiram criar?

RM: Muitas pessoas olham de fora para a minha vida e vêm que eu estou casada, tenho os meus filhos tenho as minhas coisas, vários privilégio sim, o meu carro, mais de uma casa. Mas acho que temos que trabalhar na nossa autoconfiança. Essa é a minha vida. Essa é a minha realidade. É isso que eu tenho. O sucesso atrai inveja. As pessoas olham para o resultado final, para o que eu tenho hoje mas elas não sabem de onde eu vim nem pelo que eu já passei para ter o que eu tenho ou ser o que e sou hoje.  Muitas pessoas hoje provavelmente olham para o que eu tenho e dizem; eu quero o que a Rolanda tem. Mas o que muitas não sabem é que quando eu me casei aos 22 anos eu fui morar com o meu marido em um quarto na casa da minha sogra. E nós subimos aos poucos.

Muitas vezes as pessoas querem ser o que nós somos e fazer o que estamos a fazer mas não têm coragem e acham mais fácil criticar. Temos que chegar a um ponto e perguntar para nós mesmas o que nós queremos da vida e temos que reeducar as nossas famílias e os nossos familiares porque já não somos mais crianças e temos uma opinião formada. Dizer aos nossos pais que respeitamos a opinião deles mas temos que fazer as nossas escolhas, cometer os nossos erros e vamos dizer isso com carinho e com respeito. A nossa mãe vai chorar e muitas vezes não vai gostar mas ela vai ter que aceitar e lidar com isso.

Em casa com os meus filhos eu implemento a disciplina, eles têm as suas tarefas, eles têm que cuidar das suas coisas.  Com o meu marido tenho que admitir que com o passar dos anos ele também foi se tornado mais moderno mas tivemos que trabalhar nisso. Eu também tive que fazer ele ver que estávamos numa parceria que tinha que fazer a parte dele para que eu pudesse fazer a minha e eu tenho que dizer que fui abençoada.

Hoje ele também diz aos nossos filhos que a mamã precisa do tempo só para ela, e ele cuida dos filhos, especialmente com a nossa filha mais nova. Quando ela nasceu eu estava a terminar o meu curso e ele tomava conta dela. Ele incentiva o meu crescimento, da sugestões de cursos que ele acha que eu deveria fazer, aconselha-me a ler esse ou aquele jornal estrangeiro porque acha que vai agregar mais para a minha carreira.  E para mim tem a ver com equilíbrio, cada nova estação atraí um novo desafio.  Eu acho que todos os homens querem poder chegar a casa e estar em paz. Ter uma casa limpa, ter uma mulher que cuida de si, que se preocupara com a sua aparência, uma mulher que tenha classe. Os homens valorizam isso.

GC: Eu e o meu marido já passamos por tantas coisas. Eu tenho amigos, Homens principalmente que dizem que os homens não gostam de mulheres como eu. Independentes, que trabalham tanto e têm as suas coisas. Como a Rolanda disse as pessoas olham para a nossa vida e elas não vêm, nem sabem aquilo pelo qual nós já passamos. Muitos têm inveja mas só vêm o resultado final. Vêm a Ginga numa festa sentada ao lado do Helder num vestido bonito  e pensam que é fácil que a minha vida é fácil. Não. Não é fácil!

Eu sou uma pessoa muito forte mas eu tenho uma forma muito discreta e calma de fazer as coisas. Seja com o que for que eu quero fazer eu procuro não chocar com o meu marido. Eu sei o que eu quero e dificilmente desisto. Mas eu converso com  meu marido. Eu valorizo e acho que a opinião e a participação dele são muito bem vindas. Eu sei que apesar dele ter estudado fora e ser uma pessoa com a mente aberta ele é homem, ele é africano e ele tem uma sociedade que vai fazer pressão para ele assumir este papel. E na minha casa é assim. Ele é o homem e eu sou a mulher e eu faço o meu papel de mulher.

Quando eu voltei para Angola para ficar o meu pai falou comigo e disse que acha que eu não deveria ir trabalhar para a Sonangol mas eu estava grávida e eu tinha que cuidar do meu filho como eu já disse e eu achava que deveria ir trabalhar para a Sonangol, ganhar o meu dinheiro, e que talvez seria aquela a minha vida.  Anos mais tarde quando o meu pai foi fazer um transplante de rim, antes de ir para o Brasil. Ele falou comigo por que iria fazer aquela operação e não sabia o que poderia acontecer, ele falou comigo, falou sobre os negócios da família e tudo mais, mas ele estava a conversar comigo mas acabou por entragar os negócios da familia para o meu irmão gerir. E durante muito tempo as coisas foram assim. O meu pai ligava sempre para o meu irmão para saber da opinião dele. Mas eu percebi que isto acontecia porque o meu irmão era homem e para o meu pai isso é que era o natural. Mas depois eu saí da Sonangol e comecei a trabalhar nos negócios da família, e comecei a dar ideias, a fazer mudanças, me envolvi e me tornei completamente  responsável pela gestão das coisas e um dia enquanto o meu pai estava a tomar o seu pequeno almoço eu cheguei e ele pediu para que eu senta-se e disse-me assim:

“Ginga eu estou muito orgulhoso de ti, de todo o trabalho que tu tens feito. Eu estou admirado porque nós pensamos que precisamos de montes de dinheiro para fazer as coisas e tu tens mostrado  e provado que com pouco dinheiro podemos fazer algo que pode crescer e se tornar numa coisa enorme.” 

Eu sempre acreditei que era natural para mim passar as coisas para o teu irmão que é capaz mas existia uma resistência em ver a mulher a fazer as mesmas coisas,  mas eu vejo. E eu vejo que ele ainda resiste ver uma mulher fazer, mandar em tantos homens, estar no comando dirigir as coisas. Esse não é o papel natural da mulher.

Quando eu viajo sem o meu marido ele fica com os miudos. Eles não ficam com a minha mãe. Porque ele é o pai e isso é algo que ele tem que fazer. Nesse ponto eu tenho que admitir que eu tenho um ótimo marido porque aos finais de semana ou quando não temos empregada em casa ele levanta super cedo, acorda as crianças, da banho, prepara o pequeno almoço, pergunta o que eles querem comer, prepara o lanche para a escola. Nós alternamos um dia eu levo os miúdos para a escola e no outro é ele quem leva. Ele me ajuda. Ele não é o tipo de homem e nunca foi o tipo de homem que acha que a mulher tem que ficar em casa ou ter um trabalho meramente decorativo.

Ele sai para trabalhar e eu saio para trabalhar mas ele não acha que pode sair e não tem responsabilidades em casa e eu tenho que ficar em casa quieta a espera dele, Não. Sempre que o nosso trabalho permite nós os dois voltamos para casa para por os nossos filhos para dormir. Na minha casa eu não tenho esse problema e também não quero ter estes problemas e por isso eu deixo sim ele ser o homem da casa. Eu me coloco sempre ao seu lado e se for preciso numa posição de submissão porque eu não quero criar fricção nem problemas. E sobre o resto da família. A família vai ser sempre a família e cada um sempre vai ter uma opinião.

RM: Acho que no relacionamento cada um tem que fazer a sua parte eu acho que aqui, algumas mulheres desafiam os seus relacionamentos. Acho que a coisa de deixar os outros ou a opinião dos outros no nosso casamento só interfere. O meu marido acredita que sejam quais forem os nossos problemas devem ficar entre nós em casa. Ele não leva para a mãe dele e eu não levo para a minha. Os nossos assuntos devem ficar entre nós e isso ajuda a fortalecer o nosso relacionamento.

Quando tinha vinte anos eu discutia com o meu marido, queria tirar a aliança do dedo e dizer que ia embora mas com o tempo eu fui aprendendo e amadureci. Sim o caminho pode ser difícil mas o resultado final é bonito por isso concentra-te no resultado final.  E no fundo o que importa é achar o equilíbrio e ter paz. Eu conheço pessoas que são amargas com os seus parceiros e com as pessoas  a sua volta. Eu acho que é importante ser alguém com quem as pessoas se sintam bem. Tem dias em que deixo ficar os meus filhos e vou namorar o meu marido. Eu acho importante ter um tempo para flertar, eu digo ao meu marido que ele é lindo que ele é maravilhoso eu incentivo o meu marido,  eu apoio o meu marido principalmente quando eu sinto que ele realmente precisa que olhe para ele.  Temos que continuamente namorar os nossos maridos. Eu seu quem eu sou e elogiar, apoiar, dar força, por ele para cima não vai me desqualificar de nenhuma maneira. Eu acho que temos que saber ser sabias e pacientes.

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Rolanda Machado

GC:  Eu conheço uma mulher que disse-me que a mãe dela costumava dizer para ela que uma mulher não pode ter tudo;  Uma carreira bem sucedida, um bom casamento, os filhos, dinheiro, saúde e ela disse a mãe dela, mas eu tenho.  Porque ela tinha. Ela tinha tudo isso e depois ela já não tinha. Ela perdeu o marido não porque ele morreu mas porque as coisas não deram certo e ela pediu o divórcio. E ela disse-me; “Ginga se calhar uma mulher não pode ter tudo.” E as vezes quando eu tenho algum problema com o meu marido, quando algo não está bem ou nós discutimos por algum motivo e eu também não vou ter com a minha mãe ou com a mãe dele com os nossos problemas porque essa não é a minha forma de ser. Mas por vezes quando temos um problema e discutimos e não é que eu tenho medo de perde-lo. Claro que eu tenho medo de perde-lo porque eu o amo. Mas não tenho medo de perder o marido. de não ter um MARIDO. Mas de perder o parceiro, a família, as coisas e historia que nós criamos. E é por isso que eu acredito que precisamos ter um equilíbrio  eu tenho que respeita-lo e ele a mim. Eu não preciso jogar as coisas na cara dele e eu não permito que ele jogue coisas na minha cara. Nada de insultos nem de ofensas um com o outro. Nós temos que conversar, temos que resolver os nossos desentendimentos.

Eu não aceito que o meu marido não durma na nossa cama. Para mim quando ele deixar a nossa cama ele pode deixar a nossa casa. Porque independente do problema se não conseguirmos conversar e resolver a ponto de conseguir dormir na mesma cama então estamos a abrir a porta para um maninho sem retorno.

As mulheres quando crescem muito na vida têm a tendência de se tornar egoístas e arrogantes. Especialmente arrogantes. Têm a tendência de atirar as coisas na cara dos seus maridos, mostrar e ostentar que podem e acontecem. Que não precisam dos maridos para nada. Porque os homens raramente fazem isso e chega um momento que os homens fartam-se

RM: Eu acho que tem a ver com ser humilde, acho que falta um pouco de humildade nas pessoas. As pessoas vivem muito pela aparência e é por isso que eu sou muito reservada sou uma pessoa privada em relação a minha vida pessoal e familiar. Se contares as pessoas o que conquistaste e tudo o que tens vais ter um milhão de pessoa a tua volta. Mas se fores mais privada não vais ter tanta gente e tua volta. A humildade é importante mesmo porquê não sabemos como vai ser o dia de amanhã. Basta olhar para a nossa economia. Nem todos que estavam bem ontem continuam bem hoje. É importante ter valores, ser educado, humilde, respeitar os outros e eu procuro levar isso para o nosso casamento.

GC: Quando eu falo de dormir na mesma cama porque se cada um dorme num lado mais facilmente vamos deixar os problemas se estenderem.

RM: Mas tem a ver com isso. Mesmo com os problemas temos que conseguir nos manter próximos. Ser mais consistentes, aprender a ser resilientes, consistentes porque nada é fácil. Essas pessoas bem sucedidas que vemos por aí perderam noites e noites para estarem aonde estão hoje. Essas pessoas tiverem seus desafios, foram rejeitadas várias vezes mas foram persistentes. Temos que investir, leva tempo para alcançar os nossos objectivos e sim depois chega a um ponto aonde as coisas  vão deixar de ser tão difíceis. Olhamos para trás e dissemos; Wow!

GC: E a rejeição é uma coisa boa.

RM: Se todos nos aplaudirem sempre, como é que vamos crescer?

GC: Quando somos rejeitados, temos a oportunidade de perceber que conseguimos fazer mais e melhor e ir mais longe. É um pouco como quando terminamos um relacionamento, porque fomos deixados e pensamos que vamos morrer, mas logo percebemos que não morremos que estamos aí firmes e fortes e logo partimos para outro.

RM: O tempo cura muita coisa. Viva a sua vida, corra alguns riscos, não alimente os seus medos. Mesmo se falhar tomo isso como uma lição, um aprendizado.  A única coisa que para a vida é a morte.

GC:  Farei melhor da próxima vez. Uma das coisas que me deu força quando comecei a trabalhar por conta própria foi ver o documentário. “Os homens que construíram America”. Eu posso ver e rever este documentário várias vezes. A força, a determinação e resiliência daqueles homens. As vezes que caíram e voltaram a se levantar para fazer algo ainda maior e melhor. Os obstáculos, a competição tudo isso é muito inspirador.

E com as minhas ações eu tento fazer isso. Por mais que seja difícil e por mais desafiante. Se você não seguir os seus sonhos outra pessoa vai te contratar para realizar os sonhos dela. Eu não desafio só a mim mas também aos meus filhos. Eu quero que eles vejam e que  tenham a mim como um exemplo. Eu quero que eles sejam boas pessoas mas também quero que eles sejam mais, que aspirem a mais.

RM: Quando era mais nova eu era considerada a ovelha negra da família, eu não tinha medo de fazer as coisas, de desfilar, de ir a lugares novos, diferentes. Eu sempre fui muito destemida e hoje sinto que olham para mim e desejam ter tido a minha coragem, ser destemida como eu sempre fui.  Eu não me sinto melhor nem inferior a ninguém, acho que as pessoas são apenas pessoas e cada um tem o seu papel. E Acho que sim acho que os nossos filhos têm que ser melhores e fazer melhor do que nós. É o processo natural da evolução.

No final do dia temos que relaxar e nos rodear de pessoas que nos inspiram. Antes eu tinha receio por não ter crescido cá, o meu circulo social não era vasto e já me vi no meio de pessoa que tinham a meu ver conversas vazias, pessoas que ficavam a falar da vida alheia. Eu não falo sobre a vida alheia. Posso até fazer um comentário ou outro mas isso não pode ser toda a conversa. Eu quero falar sobre livros, sobre sonhos, discutir ideias. Hoje eu propositadamente me rodeio de pessoas que eu sei que vão me ajudar a ser uma pessoa melhor.

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Ginga Cristóvão

GC: O que a Rolanda disse é a mais pura verdade, por isso é que eu não sinto saudades dos meus vinte anos nem do início dos trinta. Porque no início dos trinta eu ainda sentia a necessidade de agradar as outras pessoas. Hoje já não sinto mais esta necessidade. Hoje  eu estou com pessoas com quem quero estar, me rodeio apenas de pessoas com quem eu quero estar. Eu vou aos lugares aonde sinto que as pessoas são pessoas que me interessam. Hoje eu me recuso a estar aonde eu sei que não vai me fazer bem estar. Não tenho que provar nada a ninguém. 

Eu quero ser mais, quero poder falar de política, economia, eu quero ser parte da mudança que claramente está por vir e já esta a acontecer. Quero ser uma pioneira, quero deixar algo e não ser meramente mais uma pessoa fútil.  Acho que chega uma altura em que não queremos mais estar cercadas por pessoas que sugam as minhas energias, pessoas que não querem ir mais além.  Mesmo que crescemos com certas pessoas as vezes deixamos de nos identificar uns com os outros, por vezes já não têm mais um lugar nas nossas vidas crescemos e a vida nos mostra que somos diferentes. 

RM: Cada um tem uma razão, uma estação e um propósito nas nossas vidas e geralmente quem fica por todas as estações são os nosso familiares mais próximos. Como as roupas temos roupas para cada estação. Algumas pessoas não estão com nosco o tempo todo mas sempre que estamos juntos tudo volta a estar no lugar.

Eu aprendi muito e continuo a aprender a cada dia com estas duas mulheres. E a cada dia que passa eu orgulho-me do facto delas fazerem parte da minha vida. Eu sei que sempre que precisar de um conselho, de uma palavra amiga ou do que for a Rolanda vai estar aí e isso é muito bom. Essa mulher linda que a Rolanda é, que a cada dia veste-se melhor dentro da sua própria pele. Alguns meses depois da nossa conversa ela ligou para mim para contar que tinha cortado o cabelo e estava a deixa-los totalmente natural como vocês podem ver na fotografia acima. Ela continua essa mulher linda, trabalhadora, disciplinada e temente a Deus.

Em relação a Ginga, minha mana, Ela também continua firme e forte com os seus projectos. Como muitos de vocês sabem porque contei aqui recentemente no post intitulado Quer saber quanto custa uma saudade? aonde falo da morte do nosso pai no passado mês de Outubro. Isso mudou muita coisa nas nossas vidas. Fez dela ainda mais determinada, mudou a sua opinião sobre ter mais filhos. Hoje ela acredita que não teria mais filhos porque entende a dor que é para um filho ficar sem o amor, sem a presença de um pai. Os seus projectos profissionais continuam a crescer. Mas mesmo com a dor da perda e com tanto trabalho ela continua a ser uma pessoa a cima de tudo que quer ser feliz. No outro dia estávamos sentadas a mesa, depois do almoço. Ela foi buscar o seu laptop, começou a trabalhar e disse: “Eu gosto de trabalhar. Quando estou aqui, ou em casa com os meus filhos que são o amor da minha vida. Eu gosto do que faço. Eu gosto do meu trabalho.”

O que essas duas mulheres passam para mim é que nós podemos e devemos sim fazer o que for preciso para ser e ter tudo aquilo que queremos. Enquanto elas falavam a mensagem que elas emanavam era clara: Seja você mesma, se você não souber, não descanse enquanto não descobrir. Nada na vida que vale realmente a pena ter cai dos ceus e assim como ninguém pode viver a nossa vida por nós. Você só vai ser feliz quando tiver as rédeas da sua vida.

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