A Doutora Andrea Patricia

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Contrario aquelas pessoas que só com o passar dos anos descobrem quem elas são e  ficam mais seguras de si. A Patricia que eu tive o prazer de conhecer e descobrir ao longo dos últimos, sei lá, dezoito anos? É uma mulher que não se deixou moldar pelo tempo. Para mim, ela sempre soube quem era, foi sempre assertiva, segura de si, decidida, objectiva, bem humorada e leve. Ela já veio pronta. Ela é daqueles que passa uma aura de alguém que sempre soube quem era e qual é o seu propósito neste mundo.
O a nossa primeira introdução se não estou em erro, foi a cerca de mais de dezasseis anos atrás, em casa da nossa madrinha de batismo sentadas ao redor da mesa de jantar ela, uma jovem mulher e eu no final da adolescência ainda meio tímida, quieta no meu canto estava ali abismada, intrigada e curiosa para descobrir mais sobre quem era aquela figura. E ela estava ali: Assertiva, segura de si, confiante. Ela era o centro das atenções. Ela cativava a atenção de todos. Fazia planos, falava de como estava pronta para ir estudar medicina e de como em breve voltaria para Angola uma médica formada pronta para exercer a profissão. Essa é a imagem mais forte que tenho do nosso primeiro encontro.
Anos mais tarde no aniversario de 33 anos da minha irmã mais velha no Restaurante Le Petit Bistrot. Novamente ela chegou para comandar a atenção de todos. Ela calçava uns saltos Louboutin mais altos que alguma vez vi numa mulher. O cabelo apanhado um chignom alto e perfeito com o cabelo impecável, claramente recém desfrisado. Um vestido branco no estilo bailarina que parava a cima dos joelhos e com a cintura bem demarcada. Nos lábios um batom “vermelho cheguei” deslumbrante. Não preciso nem dizer que mais uma vez foi sobre ela que todos falavam durante e depois do jantar.
Mais alguns anos se passaram e voltamos a nos encontrar. Novamente num jantar de aniversário. Esse parecia ser o nosso destino. Encontros em jantares. E mais uma vez ela não desapontou. Muito pelo contrario; ela surpreendeu a todos. Chegou com as suas jeans descoladas, rasgadas, uma simples camisola, sapatos rasos e o cabelo natural, solto aparentemente em mini twists. E tão logo sentamos para conversar mais abertamente pela primeira vez eu fiz questão de perguntar:

No aniversário de 33 anos da Ginga parecias uma mulher super sofisticada, “das modas” e agora estas super descolada. Que mudança foi essa de uma mulher chique de saltos para essa mulher mais despojada de cabelos naturais que esta diante de mim hoje?
Eu não gosto de padrões nem de ser previsível. Tu não podes presumir que vais saber o que eu vou fazer a seguir. Eu não sou de seguir moda. As pessoas chamam-me de louca porque eu acho que não tenho que estar toda preparada todos os dias. O que eu visto é extensão daquilo que estou a viver e do que sinto. Já usei cabeça raspada. Eu achei que estava gata. No banho era uma maravilha. Por mais que as pessoas achassem que estava metida em drogas não era verdade. Eu sou dona de mim mas isso não significa que não ouça conselhos que não seja carinhosa com o namorado.
Antes gostava de cabelo desfrisado. Agora quero outra coisa. Eu faço contas. Quando recebo o meu salário, eu tenho um saldo do que posso gastar. O resto vai para a poupança.
Aprendi a ser assim a duras penas, porque quando morei fora tratava o dinheiro como se fosse água.

Durante anos os nossos encontros foram assim. Uma sempre foi simpática e cordial com a outra. Irmãs espirituais por puro acaso ou coincidência do destino e duas mulheres que queriam o bem uma da outra a distância. Mas depois do nosso último encontro em Abril de 2016 eu decidi mudar isso. A anos que eu achava aquela mulher intrigante e várias coisas nela fascinavam-me. Eu pedi o  seu número de telefone, fiz um convite para a meu segundo chá de beleza, ela aceitou o meu convite. Participou do chá. Nos divertimos a beça e de lá para cá nunca mais perdemos o contacto uma da outra e nem uma com a outra.

Eu quis conversar com a Patricia porque queria que ela passasse para as outras pessoas essa sua energia positiva. A sua atitude sempre para frente, sempre bem disposta, essa postura de alguém que sabe o que quer da vida e mais importante, de alguém que sabe aonde quer chegar, que dedica-se e coloca todo o seu empenho para alcançar as suas metas.

Aos 26 de Abril do ano de 1982, na cidade de Luanda, nascia Andrea Patricia Pontes Sebastião, única menina da sua mãe. A mais nova de no meio dos rapazes.

Por ser a única menina es super protegida e o centro das atenções. Eu tenho irmãos rapazes e não tinha ninguém para fazer companhia. Cresci com eles, cresci muito ligada as minhas primas mas eu sempre gostei de ficar no meu canto. E o que me fez ficar mais diferente foi morar sozinha durante anos. Fui viver sozinha aos 22 anos e o que aprendi com isso, dinheiro nenhum compra. Aprendi a cuidar de mim, a fazer contas, a pagar as suas contas.

Estamos numa sociedade em que as coisas e as pessoas são muito julgadas pela aparência. Em que a aparência conta muito. Eu não sou de me preparar muito e isso vem de pequena porque a minha forma de ser, a minha forma de estar tem que vir de dentro.
Não que eu não me preocupe, mas não para impressionar as outras pessoas. Tenho espelho. Antes tenho que estar bem para mim mesma. Não posso prostituir a minha mente. Não posso me preocupar só porque a maioria pensa de uma forma.

Desde muito pequena a minha mãe sempre disse que beleza não põe mesa. Eu cresci a ouvir isso mas nunca entendi muito bem o que isso queria dizer. Ela nunca me disse tu es linda, tu es isso e aquilo. Não. E até hoje a minha mãe olha para mim e diz coisas como: “Tu es uma miúda singular. Tu es exótica.” Sei lá o que ela via de exótico em mim. Hoje em dia tenho muitos amigos que não se conhecem e eu gosto de juntar os amigos as sextas-feiras, eu chamo de esquenta. Um deles, alguém que eu conheço desde os meus 25 disse-me assim: “Tu es única!”

Os meus amigos de verdade são a minha mãe, o meu pai e os meus irmão. Esses seja o que fizerem, o farão sempre a pensar no que for melhor para mim. Os de fora eu tenho poucos mas bons amigos. Estes são como se fossem irmãos. Chamo de mano e mana. A amizade que tenho por estas pessoas é de puro respeito e amor.
Tem uma coisa que a incomoda na forma como as pessoas vêm a amizade. Se tens um amigo que te faz mal, tu tens que perdoar? Tu não tens que perdoar. Alias quem perdoa é Deus. A pessoa tem que ser responsável pelo que fez. Eu termino amizades como termino um relacionamento amoroso. Ponho a pessoa sentada e relato os motivos, exponho os pontos. Se essa pessoa quiser mentir vai mentir porque quer. Eu vou passar tudo em pratos limpos. Talvez não deixe de falar completamente com a pessoa. Vou cumprimentar mas não vamos mais ter a mesma amizade. Para quê ter uma pessoa na nossa vida que já mostrou que não valoriza a amizade que tem. Eu não sou obrigada e se eu não sou obrigada porque é que você agora é a coitadinha e eu sou a má da fita por não te querer mais na minha vida?

Se eu conseguir ser amiga deste ao daquele sendo quem eu sou estou feliz. Eu tenho o cérebro muito perto da boca. E por isso mesmo, hoje tento ser um pouco mas fofa.

Três coisas mais importantes para si?
Característica de “Ser Humano”. A pessoa tem que ter amor. Amor para você dar, para poder ajudar.
Humildade!

Quem são as pessoas mais importantes na sua vida?
Os meus pais, irmãos e os filhos dos meus irmãos que são filhos também. O namorado (na altura, agora marido) agora entra. Tem que ajudar, agregar coisas boas.
Nunca quis casar, agora é que está a bater a ideia de casar. Por ser filha de pais separados nunca ouviu muito boas coisas do casamento. Mas sempre quis ser mãe, sempre pensei na adoção. Filho não é só aquele que você pare. Tem casos lindos e tem casos de adoções que não deram certo, mas tem casos muito bonitos que deram muito certo e são nestes casos que eu prefiro me concentrar. Tu servires de modelo para alguém que não tinha nada e se  mesmo assim conseguires alavancar este ser humano, ter responsabilidade sobre esta pessoa e transforma-lo num indivíduo que vá fazer a diferença eu acho isso o máximo.
Eu fiz trabalho voluntário num orfanato quando vinha de férias e acho o máximo. Sempre fui ligada ao voluntariado. Lá no Brasil também fiz trabalho voluntário com uma professora, em uma das favelas mais perigosas do Rio de Janeiro. Eu Acho voluntariado o máximo, educar, poder ser uma peça para a evolução, uma peça transformadora na vida de uma pessoa.

Acha que está preparada para lidar com uma possível adoção dentro da nossa realidade?
Eu não posso ser ignorante ao ponto de achar que o que eu penso esta certo e os outros é que não. Eu acho que isso esta errado. Temos dois ouvidos e uma só boca e acho que não é por puro acaso. Muitas vezes quando falamos em adotar as pessoas dizem logo; “Mas sabes lá o que essa criança já passou. Os traumas que ela carrega? Depois pode não dar certo no futuro.” Tu não te podes prender por aí. Há casos que dão muito certo.

Quando eu falo em adotar eu falo em realmente tomar esta criança e cuidar dela como minha. Dar amor, carinho, formação. Aqui as pessoas falam muito… “Ah! Adotei uma criança.” Quando no fundo, esta criança dorme nos fundos da casa, não senta a mesa com o resto da família para as refeições. É a miúda que toma conta dos seus filhos. Para isso diz que tem uma menina que esta em minha casa e eu abrigo. Não diz que adotou, porque adotar é outra coisa. Adotar é tornar teu. É dar amor. A forma como tu cuidas dessa pessoa, se maltratas ela pode se revoltar. Do mesmo jeito que…
“Vou te contar um segredo! Segredo:

 Eu estou grávida. Falta contar a duas pessoas importantes na minha vida. Uma delas não esta cá no momento e eu quero contar dos meus próprios lábios.

Eu sempre pensei que se não tivesse os meus filhos biológicos ia querer adotar. O meu namorado (hoje marido) ainda não vê bem a adopção. Talvez porque para ele o adotado foi sempre aquele que ficou largado num canto. Se você quer mudar a vida de um indivíduo tem que ser por inteiro. A adoção é uma coisa de família; envolve todos.
O meu namorado é extremamente inteligente, com muito amor para dar, que crê em Deus e acho que ele tem a capacidade de amar. Mas isso tem que ser uma decisão do casal e se ele não quiser, se não estiver preparado eu tenho que respeitar isso, mas também estou consciente que existem mil e uma formas de ajudar, de me envolver, de fazer algo.
Eu penso assim… Quando eu tiver o meu consultório eu tenho que sei lá ter a capacidade de semanalmente atender um certo número de crianças de graça. Acho que posso contribuir desta forma.
O pior que tem é ver alguém sem esperanças sem metas.

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Imagem tirada do instagram da Patricia

O que te faz pensar hoje na possibilidade de casar? O quê hoje tu vês que vale a pena? Porquê casar?
Hoje em dia casar é dar festa. Aparecer.
Para mim é compartilhar a minha vida com uma outra pessoa. Estar aí um para o outro. Para mim poderia até ser uma união estável desde que as duas pessoas que escolheram entrar para esta união a encarem como um casamento. Isso fez-me pensar que esta aí… Está é uma fase da vida que eu quero experimentar! Já experimentei outras e agora quero experimentar isso. Para estar contigo eu tenho que poder ver lá longe. Preciso poder projectar como vai estar a nossa vida lá na frente.
Caracter, inteligência, classe não se compra. Podemos comprar roupas bonitas mas outras coisas não. Eu já tive quase noiva e desisti. Olhei para o meu quase ex-noivo e não consegui ver uma vida a dois.
Antes de casar temos que estar de olhos bem abertos. Tira o pé antes de casar. Quando as coisas já não estão a dar certo. Porque se casamos por pressão, na dúvida, por ilusão ou desespero; Mais tarde quando não der certo não vamos poder dizer que o fizemos por causa da pressão da família ou da sociedade.

“Todos vão dizer: Então tu não casaste? Demos uma festa enorme, dançamos porque tu querias. Es tu quem vai ficar casada. Os nossos pais já viveram as suas vidas, já cometeram os seus erros. Mas se antes de casar as coisa já não parecem certas se existem sinais de que não vale a pena. Claro que as pessoas mentem e fingem. Mas se o que eu conseguir ver aqui valer a pena; vamos partilhar, vamos batalhar para fazer a nossa vida a dois valer a pena lá na frente. É um outro estado pelo qual eu quero passar.
Por muito tempo foi-me dito que o casamento era uma porcaria. Mas hoje vejo que não é bem assim. É difícil sim porque nem gémeos que nasceram ao mesmo tempo da mesma barriga têm a obrigação de se dar bem. Alguém que nasceu de outra pessoa, teve outra educação, outras vivências tem o direito de ser diferente. 
Tens que assumir as responsabilidades sobre a tua vida. Amanhã não vem com lamentações de ah porque me disseram. Não vale a pena; a responsabilidade é tua.
Outra coisa que acho importante dizer é que nós crescemos a dizer que tens que crescer primeiro, estudar, casar e depois ter os filhos. Eu estudei, ainda não me casei, estou grávida. Feliz! Nós fazíamos planos de casar antes da gravides e os planos não vão ser interrompidos por causa disso. Se a minha família exigir algo eu vou dizer que não. Que eu quero assim. Porque no dia-a-dia vai ser com ele. Lá em casa não estão os meus pais, os meus irmãos. Sou eu e ele. Assim de cara lavada.

Paixões na vida
Acho que minha maior paixão na vida é essa, eu tenho que dar o melhor de mim a outra pessoa. Seja o que for eu tenho que poder dar o meu melhor sempre. Ser boa amiga, doar o melhor de mim. Nem sempre isso acontece mas é o meu ponto ou como o meu namorado (Hoje marido) diz “ É o meu mambo!”

E os teus medos?
Nunca pensei assim.  Ah! Tenho medo disso ou daquilo. Nunca pensei num medo grande.
Acho que tudo é possível. Não posso masturbar a minha mente com coisas pequenas. As outras pessoas não podem ter acesso aquilo que eu quero pensar. Ah porque sexta-feira é dia do homem. Não é nada! Ou porque o meu namorado não sai sozinho. Mas não sai porque? Ele antes de ti já tinha vida própria, já tinha amigos. Se ele quiser sair o problema é dele. Se fizer porcaria e eu vir a descobrir o problema é dele. Agora se ele sair e curtir a torta e a direita e voltar é um direito dele. Não somos obrigados a viver juntos como camelos. Vamos sim passar montes juntos, fazer várias coisas juntos mas não o tempo todo. Eu sou bicho do mato e tenho os meus momentos em que não quero ver ninguém e também sei que não posso obriga-lo a querer algo porque eu quero e ele não ou vice versa. A pior coisa que tem é proibires e quereres transformar a outra pessoa naquilo que tu achas que tem que ser. Essa pessoa tem carácter, tem individualidade. É uma outra pessoa.
Eu não gosto de ser manipulada. Eu gosto de acreditar nas pessoas e acho que a tua palavra tem que ter valor. A tua palavra tem que valer mais do que dinheiro. Se eu falo contigo uma coisa e o que tu falas não tem valor então você não é nada. A minha mãe as vezes diz: “Tu es muito inocente.” Mas eu prefiro ser assim. Eu prefiro acreditar no que as pessoas dizem porque o que elas dizem tem que ser a verdade que elas estão a passar. A tua palavra, aquilo que  você diz tem que ter valor.

Do que você acha que as pessoas estão carentes hoje em dia?
Eu acho que as pessoas hoje em dia estão carentes de muita coisa. Valores! Fui educada de que devo viver consoante as minhas possibilidades. Cuidado com a prostituição física e psíquica para ter uma vida que você não pode sustentar. E se ainda assim você escolher essa vida, cuidado porque a beleza não dura para sempre. É verdade que muitas pessoas não têm nada, passam fome. Mas eu fui educada de que ao dar amor só vamos receber amor de volta.
Faltam valores, falta educação.

E as tuas escolhas Profissionais…

Entre os dezanove e Vinte anos, antes de ir para o brasil a Patricia fez um curso técnico de enfermagem e com isso fazia noite (trabalhou no período da noite). Foi estagiaria no Hospital Américo Boa Vida, aonde também trabalhou como voluntária durante um ano. Depois de sair do Américo Boa vida foi trabalhar para a AngloDente aonde foi convidada para ser enfermeira chefe na área de Pediatria.
Pouco tempo depois tratou do seu visto e dos documentos para estudar no Brasil, no Rio de Janeiro para ser mais exata. Dois dos seus irmãos mais velhos estudaram lá mas quando ela foi para o brasil um dos seus irmãos já estava de volta a Angola e o outro também já estava a caminho. Ficou por algum tempo para mostrar como tudo funcionava e depois de alguns dias voltou para Angola. Ela foi para o Brasil para fazer medicina geral e ao terceiro ano da faculdade de medicina começou a pensar na vida, em como queria que a sua vida fosse e percebeu que se fizesse medicina geral viveria de turnos. Nesta altura passou por uma fase de reavaliação de tudo, uma fase que não sabe se pode chamar de uma pequena depressão em que percebeu que nunca tinha pensado em ser ou fazer outra coisa que não fosse medicina e percebeu que 99% daquela decisão tinha muito a ver com a mãe. Desde pequena quando as pessoas se aproximavam para perguntar o que ela queria ser quando crescesse e a mão logo respondia por si: “Ela vai ser médica.”

Quando estava a pensar sobre isso percebeu que nunca tinha respondido a questão. Nunca disse o que queria ser no futuro. Então disse para si mesma que não queria mais fazer medicina Geral. Ligou para os pais e para os irmãos, eles pensaram que ela estava a fumar ou algo assim: A mãe não acreditava. “Então ela sempre quis fazer medicina. Ela até já sabia o que eu iria fazer. Nefrologia — a área de medicina que cuida dos rins. O seu pai foi ao eu encontro no Brasil para saber o que se passava, constatar a sua sanidade. Ela contou que o seu pai sempre foi muito calmo pelo menos consigo. Depois, um dos seus irmãos também foi ao seu encontro para saber o que se passava e pode constatar que ela estava bem. Apenas não queria mais fazer Medicina Geral.

Então eles perguntaram: Se eu não queria fazer medicina o que é que eu queria fazer? Eu disse ta aí. Eu também não sabia. E foi fazer exames de aptidão em várias faculdades e passou em várias e isso só tornava a escolha mais difícil porque se ao menos reprovasse em algum exame era algo que poderia eliminar. Mas lembra de estar em casa a ver televisão e viu uma publicidade de uma escola de odontologia. Inscrições ainda abertas. E disse para si mesma que se calhar poderia ser aquilo. No dia seguinte foi para lá. Levou os seus documentos da faculdade de medicina e estava pronta para fazer os exames de aptidão. Posta lá foi-lhe dito que não precisava fazer os testes de aptidão porque a carga de medicina era muito mais puxada do que a de odontologia e que poderia entrar directamente.
“Saí dali e liguei para cá para avisar que queria ser dentista. A reação da minha família foi: Dentista. Dentista cá em Angola vive de quê?”
Ouviu tudo isso mas ainda assim seguiu a diante e começou a fazer o seu curso. Mas depois de ter começado, logo no inicio parava para pensar e se não der certo e se não for  a melhor opção? Porque a sua família já tinha traçado um plano para a sua carreira e se o que ela escolheu não desse certo? Depois começou a pesquisar e entrava para aqueles chats aonde via pessoas a dizerem que os dentistas estavam a morrer de fome. “Sou dentista mas agora vendo bolinhos para sobreviver.” Mas eu fui a diante e encontrei um grupo de amigas que me fez ver a vida com outros olhos.
Quando parou para pensar sobre a carreira e o estilo de vida que queria forjar e viu que como dentista não teria horários tão restritos como em medicina. E o facto de que em casa tinha a experiência da mãe que trabalhou como radiologista e perdeu várias ocasiões especiais como o natal por exemplo, longe família. Ela não queria isso para a sua vida. Como dentista teria maior controle sobre os seus horários de trabalho.

Na época do curso de odontologia fez um grupo de amigas que foram fantásticas. Acabou o curso em 2009 mas mantém o contacto com elas até hoje. Ela conta que naquela altura ainda tinha a cabeça de uma estudante de medicina. Estudava muito e elas é que a deixaram mais relaxada, mais tranquila. Elas diziam assim: “Aqui é assim minha filha; Ela pergunta quanto é 1+ 1 e você fala 2. Ou se te perguntarem quanto é 2+1? Você fala 3. Não vai pegar mecanismo de ação. Deixa de questionar muito, para de fazer tantas perguntas na aula.” Elas deviam olhar para mim como a Angolana chata que as vezes fazia perguntas que os professores não sabiam responder. E depois dai foi fácil. A bagagem que já tinha da faculdade de medicina ajudou muito. Encontrei uma turma muito boa. Não só as mulheres mas os rapazes também. “Foi mamão com açúcar.” Hoje vê que até a data foram os melhores anos da sua vida. Só tinha que estudar, gastar dinheiro.

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E hoje como é ser Dentista?

Eu gosto imenso daquilo que eu faço. Eu gosto do meu trabalho.
O meu irmão mais velho, quando eu era pequena disse-me: Tu não podes entrar para uma guerra com poucas armas. Se forem poucas têm que ser todas as que tu tens. Não entres para uma luta ou para uma guerra sabendo que vais perder. Se não nem vale a pena lá estar. Isso ele disse-me quando eu era menorzinha mas ficou até hoje.
A minha mãe disse-me nem que tu sejas uma varredora de rua, que sejas a melhor.
Eu juntei essas duas coisas e é isso que eu faço. E vi que trabalho árduo, bem feito, não estou a dizer que sou a melhor dentista, mas gostar daquilo que eu faço e tentar sempre fazer melhor tenho sempre melhores resultados. Fico sempre satisfeita e dando sempre o meu melhor a outra pessoa que recebe o meu trabalho, o meu paciente vai receber o melhor que eu pude dar. Então fico satisfeita porque faço o meu trabalho, não fico com preguiça. Ou faz para fazer bem feito ou não faz. Isso irrita-me até hoje as pessoas que têm uma atitude de vou só fazer para não ficar assim. Então é melhor ficar sentada. Não faz. Ou faz para fazer bem feito ou não faz.

Como é a tua rotina de trabalho?

Quando cheguei, trabalhei em duas clínicas. Isso punha-me maluca. Mas a medida que fui ficando, fui vendo bons lugares. Os lugares que se calhar eram mais interessantes ficar. No primeiro instante assim que cheguei, queria o primeiro emprego. Depois disse, esta aí! Já fui acolhida, afinal sei fazer alguma coisa. Depois vi que consigo, que sei. Então tenho que começar a ganhar dinheiro com aquilo que eu sei. Tenho que fazer um bom trabalho e conquistar os meus pacientes (clientes) isto implica o seguinte: Começar por recebe-los bem. Conversar com eles, quebrar o gelo, porque as pessoas têm medo e trauma de dentistas e com a conversa, por os pacientes a vontade eles começam a ganhar confiança. Muitos pacientes principalmente os homens e os mais velhos chegavam para o meu consultório e viam uma miúda jovem e olhavam para mim com a cara torta mas aí é que esta; eu tinha a chance de lhes mostrar que eu sou boa e eles saiam dali com outra postura. Para aonde quer que fossem eu sei que falariam bem do meu trabalho eu sei que no boca a boca o meu trabalho seria reconhecido. Eles diriam: A miúda é nova mas é boa.
Eu sempre fui muito simples, nunca tive um comportamento autoritário nem punha ares por ser doutora.

Depois de regressar do brasil e assim que comecei a trabalhar as pessoas achavam que eu tinha que me vestir de uma forma que me fizesse parecer mais responsável. Para ser levada mais a sério. E eu dizia: Eu sou uma dentista cool! Sou mulher tenho o meu estilo, mas não faço isso por causa dos outros. Adoro as minhas jeans e não as largo por nada. Tenho o meu estilo mas também tive que fazer algumas concessões. calças jeans com uns saltos. uma roupa e sapatos mais casuais e uma camisa mais arrumada. Dentro da minha capacidade intelectual ver que eu posso ter o meu estilo e estar bem apresentada o suficiente para trabalhar.

Como foi o começo da carreira? Conseguir o tão desejado primeiro emprego?

Eu não sabia fazer um CV. Pedi ajuda para escrever o CV mas fui atrás do meu primeiro trabalho. Bati as portas e fui trabalhar para a primeira que me aceitou. Eu nem sabia que era uma boa clínica na altura mas consegui.
Eu nunca fiz medicina cá, acho que ter estudado fora ajudou bastante. Ter feito os cursos que fiz ajudou bastante. O facto de ter feito enfermagem ajudou e ajuda muito até hoje. tornou-me mais humana. Outra coisa que é importante salientar é que quando te aceitam para o primeiro emprego, exploram-te. Eu fui explorada e mesmo depois de perceber que estava a ser explorada, no inicio até deixei. Era que nem estagiaria. Não reclamava. Faz isso eu fazia, faz aquilo eu fazia porque eu sabia aonde queria chegar. Queria aprender, precisava praticar e como estive muito tempo fora do país, precisava aprender como as coisas são feitas cá em Luanda.

Os meus irmãos trabalham em outras coisas. Eles não me poderiam ajudar. Eu tinha que trilhar o meu caminho sozinha. Tinha que me virar. Nenhum irmão ou tia chegou e disse olha filha da-me o teu currículo que eu vou entregar a fulano ou sicrano e tu estas empregada. Não! Fui bater a porta do primeiro emprego e consegui. Depois consegui um outro, Deixei o primeiro emprego e fui bater noutra porta e depois vi que eu queria um nome e para isso tinha que estar num bom lugar. Comecei a pensar que o meu bom nome era a melhor coisa que eu tinha e isso deu-me mais garra para tentar fazer as coisas da melhor forma possível. Não digo que não errei. Errei bastante, mas tive que aprender com estes erros para não voltar a comete-los. E comecei a pensar que já que vou viver do meu nome quero que o meu nome seja associado a um bom trabalho na boca do paciente.
Quero que o meu nome seja associado a bons lugares. Então saí e no meu segundo emprego eu vi que a clínica estava pouco interessada no tipo de material que usava e eu sei que fazer um bom trabalho passa por isso. Passa pelo tipo de material que uso. Se uso um material fuleiro o tratamento também não vai sair muito bom porque o material era de quinta categoria. Então eu disse que não queria. Desvinculei-me daquele lugar e fui para um outro lugar. E foi nesta clinica aonde ela estava a trabalhar até a altura da nossa primeira conversa.

Mas ela confidenciou que não voltaria para este lugar depois das férias e depois de ter a sua bebé porque iria procurar outra coisa. Quer ter o seu espaço. Aprender a ser gestora e contabilista. Cuidar do seu próprio lugar. Dar a sua cara a tapa. Não vai mais se esconder atras de uma clínica. Vai ser ela a responder pela qualidade do atendimento e do serviço. Já não vou estar escondida na clínica de outra pessoa. Vou a busca dos conhecimentos que não recebi na faculdade de medicina.

Quase dois anos se passaram desde a nossa primeira conversa eu fui conversar novamente com a Patricia para saber das novidades, falar sobre beleza, por a conversa em dia e saber como as coisas estavam a evoluir. Desta vez fui eu que me desloquei. desta vez eu fui ao seu encontro. A primeira coisa que ela contou sobre a sua carreira foi que ela ainda não abriu a sua clínica porque ainda estava a comprar o espaço. Ela contou quedemos de ter tido a bebé não voltou mais para o seu antigo emprego e que no momento está a trabalhar numa outra clínica.

Por que que saiu da última clínica em que trabalhou?
Eu saí da clínica por algo que eu considerei falta de respeito. Falta de respeito em relação ao meu trabalho. No início quando chega um novo profissional é muito tranquilo. O teu chefe, que no meu caso era alguém com a mesma especialização que a minha, achava que eu nunca chegaria ao mesmo ponto que ele, ao mesmo patamar. Mas os meus pacientes gostavam de ser tratados por mim e preferiam não ser atendidos por outras pessoas. Muitos vinham de fora dizer: Não! Eu vim para ser atendido pela doutora fulana. E se calhar ainda muito ingénua eu achava que isso era bom para clínica. O meu chefe assumia e comportava-se como se a clínica fosse dele mas não me parecia estar tão preocupado com as pessoas. Ele parecia estar mais preocupado com os números. Na clínica aonde eu estou hoje o dono não exerce, mas ele quer ver a facturação. E o médico que da uma boa facturação ele não se importa. Para ele é melhor e faz o possível para não perder esse médico.

Já no lugar de onde eu saí já me foi dito que o objectivo (de certos responsáveis ) era por exemplo só ter médicos mestiços e brancos. Muitas vezes me perguntei porquê me estavam a dizer aquilo e preferia não ligar. Ela contou que no tempo em que lá esteve a trabalhar viu muitos funcionários com esse perfil tão desejado que deixavam muito a desejar, muitos na pratica não apresentavam um trabalho de alta qualidade, outros não aguentaram a carga de trabalho e prova disto é que muitas vezes quando o seu chefe tivesse que se ausentar era ela quem o chefe deixava a substitui-lo. E ela era a preta de cabelos crespos/naturais. Um contraste. Era ela quem respondia pela clínica, era ela quem recebia as pessoas. E quando começou a fazer mais dinheiro por mês o seu chefe começou a fazer observações do tipo:
Tu nem és casada, não tens filhos. Vais fazer o quê com este dinheiro? E eu respondia que o dinheiro era meu e eu saberia o que fazer com ele. Depois ele disse que a intenção  da clínica não era que os médicos ganhassem tanto assim. Para ele os salários dos médicos não deveria passar dos $3000, $3500 no máximo $4000 e meu estava a subir. Respondi dizendo que achava que isso era bom para mim mas também para a clínica. Depois de algum tempo percebi que ele estava sempre a controlar o meu trabalho, começou a tirar alguns dos meus pacientes e re-encaminhava para ele e para outros médicos. Os meus pacientes recusavam-se e alguns depois ligavam para mim sem entender.

Com o passar do tempo fui tendo outros sinais, ficou mais atenta foi aconselhada a prestar mais atenção ao que estava a acontecer na clínica até que depois de algum tempo ele decidiu mudar o meu calendário de trabalho. Eu tinha apenas uma folga porque quando comecei a trabalhar ele pediu que trabalhasse com exclusividade para a clínica mas depois tirou alguns dos meus dias de trabalho, aumentou as minhas folgas, começou a tirar os meus pacientes e a dizer que eu estava a fazer mal as coisas e depois não me deixava ligar para os pacientes para descobrir o que eu tinha feito mal. Até que encontrei uma das minhas pacientes. Perguntei se estava chateada ou insatisfeita com o meu trabalho e a paciente negou. Os implantes são muito caros mas felizmente depois de explicar o procedimento muitos dos meus pacientes estavam dispostos a pagar. Além de tudo isso tiveram outras situações, outras situações graves e bem desagradáveis. Quando ele tirou os meus horários foi a gota de água. Conversei com a minha família. Com a minha mãe e os meus irmãos depois falei com o meu pai e entreguei a minha carta de demissão.
Ele não estava na clínica quando eu entreguei a carta de demissão. Depois ligou para mim como se tivesse sido surpreendido com a minha decisão e eu tive a sensação que ele achou que eu fosse mudar de ideia. Mas não. Eu deixei-o falar e quando ele acabou disse que a minha decisão já estava tomada e era final.

Eu saí dali e não olhei para trás. Quando eu termino uma relação acabou. Não me interessa saber mais nada sobre quem ficou lá atras. Claro que uma ou outra coisa vem parar aos meus ouvidos e não me surpreende. E eu já disse bem feito porque até aonde sei ele não encontrou um especialista que fique muito tempo ao lado para levar a coisa  para frente. Está constantemente a mudar. Vem uma fica algum tempo, sai e vem outra. Depois de sair da clínica eu fui ter a minha bebé, voltei e decidi me dedicar só a ela por um tempo. Depois disso tive ocupada com os preparativos para o casamento, casa nova, vida de casada. Preferi ficar algum tempo sem trabalhar. Fiquei numa boa.

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Nesta clínica estou a aproximadamente 3 meses. É uma clínica gerida por mulheres. Gosto de lá trabalhar porque ninguém se mete com o meu trabalho. Já perceberam que eu trago uma boa facturação para a clínica, sabem da qualidade do meu trabalho. Em pouco tempo de trabalho nesta clínica os responsáveis reuniram-se e disseram que à querem na clinica; Pediram exclusividade. Pediram para ficar com os seus horários. Ela deu os meus horários. Não queria trabalhar aos sábados, mas não teve jeito e esta a trabalhar aos sábados porque a colega que trabalha aos sábados não faz várias coisas. “Aquilo é como um banco de urgências. Eu trago alguma bagagem e tenho duas especialidades e eles precisam e valorizam isso. Eu quero trabalhar bastante, quero que valha a pena mas não quero ficar ali por muito mais tempo.” Pensa sair assim que a sua clínica ficar pronta. Também tem os seus planos de ter mais um bebé.
Mas enquanto isso não acontece ela conta que esta a gostar de lá estar. Eles dão abertura para trabalhar.

Logo depois da nossa conversa tinha programada uma viagem para Portugal para fazer um curso. Era a sua folga e tinha que ir as compras antes de viajar. Quer deixar tudo organizado, com comida, as coisas para a bebé porque o marido também não tem muito tempo para ir as compras e não quer que falte nada em casa durante o tempo que estiver ausente. Deixou ficar a filha com o pai.
Vai fazer um curso em botox e preenchimento com acido ialoronico. Para harmonização do sorriso daquelas pessoas que riem e aparece muito a gengiva. Isso resolve-se bem com um preenchimento. Se a paciente quiser o lábio fica um pouquinho maior e esconde mais a gengiva. Neste caso vai fazer um curso que vai ter a duração de quatro dias.Hoje em dia não se mete em nada que dure mais do que uma semana por causa da bebé e também por isso a bebé não pode ir consigo.

Eu saio do Hotel logo pela manhã e o curso vai das 09:00 da manhã até as 20:00 da noite. Não tenho tempo para a minha filha. Aí vem baba, e isso e aquilo.  São gastos e eu comecei a trabalhar agora e fazendo as contas de casa e do próximo filho que eu quero ter, temos que fazer poupança. Há muita coisa para fazer. Então não adianta levar a bebé.

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Eu disse a patrícia que nunca havia pensado no preenchimento nem em botox para esta área. Ela disse que tem muito a ver e faz uma diferença grande. Depois deste curso não vou sair por algum tempo. Mas assim que for possível tem um curso que eu quero fazer que chama-se bixectomia. Eu hoje olho por exemplo para estas famosas que vendem beleza. A Profissão delas é ser bela. Um exemplo comum são as irmãs Kardashian. Eu olho para o rosto delas e consigo identificar muitos dos procedimentos que já fizeram até procedimentos com o próprio dentista. Não apenas estéticos. Tem um procedimento de chama-se bisxetomia que é tirar umas bolas de gordura que nós temos nas bochechas e quando tu tiras, chama-se bolas de Biche. Foi um francês quem descobriu. Tira algumas bolas e o rosto fica mais afinado. Todas elas fizeram não é apenas contorno! Aqui ainda não chegou. Aqui muitas pessoas não fazem preenchimento para o lábio ficar mais caído, mais gordo, melhor desenhado para afinar mais, ainda não chegou. É uma cirurgia relativamente simples, com anestesia local e é um curso que eu quero fazer e posso pagar e quero ter isso no meu currículo. Não posso parar de progredir. Principalmente para quando abrir o meu consultório.

Mais a mulher, do que os homens, muitas podem estar bonitas, com o melhor sapato a bolsa mais bonita mas infelizmente muitas vezes não cuidam da saúde da boca e muitas vezes vão ao consultório só porque querem resolver o problema daquele dente da frente. Então na minha clínica, quando o paciente chegar até mim quero poder juntar várias coisas, fazer essa simbiose; Juntar o lado estético com a saúde bocal.

Eu perguntei a ela se isso também não se deve ao facto dos tratamentos dos dentes serem tão caro?
Eu posso falar pela odontologia. Tu estas a substituir algo que tu já tiveste alguma vez, mas perdeste por sei lá que motivo. Fazer uma prótese bem feita da trabalho. Preciso de um bom laboratório, preciso de um bom protesista, o material é caro, especialmente se queres fazer um bom serviço. É muito caro. Nesta parte de odontologia eu assumo: É caro.
Muitos donos de clinicas não trabalham nas suas clínicas e o resultado disso é que só querem ver lucro. Então muitas vezes quem gere estas clínicas põe preços muito altos.
No consultório quem da a cara es tu e a clínica claro. Mas muitas vezes o paciente volta porque gostou, mas também volta e diz que esta com dor, que o doutor não fez bem o trabalho. Primeiro vem o teu nome depois é que vêm os outros médicos e só quando as coisas correm muito mal, ai é que o paciente diz que a clínica X ou Z não é boa. Primeiro estas tu. Então se es tu, tens que poder fazer o melhor trabalho possível na boca do paciente. Tenho que ter material de qualidade e tenho que trabalhar na minha técnica e no atendimento ao cliente e eu tenho que dar o meu melhor todo o santo dia.

Por isso, quando eu entro para a clínica os meus problemas todos têm que ficar do lado de fora. Lá atrás. Tenho a minha mãe internada sim. Mas isso não pode influenciar de forma negativa no serviço que eu estou a prestar porque esta paciente está a pagar por ele. Eu assino contrato. Eu presto serviços a clínica e se eu presto serviços a clínica então o paciente compra pelos meus serviços. Se ele esta a consumir o meu serviço ele tem todo o direito de dizer que não esta bom, não gostou.

Nós angolanos muitas vezes achamos que só o estrangeiro é que sabe fazer. Que o estrangeiro faz melhor e não é assim. Tem muita gente a trabalhar bem. Recebo casos que saem de fora, de Portugal, dos Estados Unidos e muitos deles eu olho e digo não esta bom. Muitos pacientes acham que só porque fez fora do país é melhor. Quando chegam ao meu consultório e eu digo que vão ter que fazer tudo novamente ficam indignados. Para aquele tratamento que o paciente fez fora do país, ele pagou a passagem de avião, o hotel, transporte, despesas diárias, o shopping, o dentista que não fez bem o trabalho. Mas posto cá em Luanda com o médico Angolano vem dizer que esta caro?

Várias pessoas que passam pelo meu consultório ficaram sem dentes. Qual é o preço que você vai pagar para ter uma boca nova?
Um dos exemplos que eu dou é da tua irmã que já foi atendida por mim. Depois quando eu fui ter a bebé ela teve que viajar e foi atendida por um dentista em Paris que perguntou quem a tinha visto e ela falou de mim e o dentista disse a ela para manter esta dentista, no caso eu. Perguntou ande tinha sido atendida e ela disse que tinha sido cá em Angola. Na Africa. Ele ficou surpreso! Na Africa aonde esta todo mundo a morrer de fome. Quando ela disse-me aquilo foi o melhor elogio que eu recebi. Quando eu cuido de um paciente eu estou consciente que o trabalho que eu faço na boca de alguém vai percorrer o mundo. As nossas dificuldades económicas e estruturais fazem com que nós tratamo-nos lá fora e acho que é chato o médico estar a dizer que o seu colega deveria ter feito isso ou aquilo. Eu digo que o meu padrão não é esse. Eu não posso comprometer o meu trabalho.
Por exemplo as pessoas que vão por aparelho fora e depois têm que fazer a manutenção cá. Lá só pagas pelo preço do aparelho e posto cá tens que refazer o trabalho.
Nós aqui temos a mania das patentes. Sou professor catedrático e isso e aquilo. Aonde eu estudei o professor catedrático chega e faz. Mas também tenho que admitir que eu não sei tudo e se não sei tudo. O que não sei mando para um outro especialista que entende melhor do que eu. Temos que trabalhar e respeitar o dinheiro que ganhamos e o que o paciente paga. Eu tenho vários pacientes de várias clinicas por onde eu passei que ligam para mim para saber aonde eu estou e se não consegue pagar o preço da clínica aonde eu estou eu recomendo para uma clínica ou um médico da minha confiança aonde ele vai poder pagar.

O que te inspira e o que esperas inspirar nos outros?
Muita coisa. Amor.
Amor para mim é a resposta para muita coisa.

O que não tolera?
Traição.
Seja de amigos, namorado. É o que até hoje não tolerei.

Do quê você sente falta?
Neste momento de ter o que é meu.
Meu consultório, minha empresa. Eu escolhi ser dentista e digo que vou morrer dentista. Por isso tenho que fazer algo por mim porque não tenho aposentadoria garantida.

A Patricia acha que é mulher que sempre quis ser?
Ainda não sou mulher que eu sempre quis ser. Estou no caminho. Eu vivo concisa, vivo focada naquilo que eu acredito, naquilo que eu quero ser. Eu tenho foco, tenho metas, tenho esperança. Acho que deve ser complicado viver à deriva. Ainda não estou lá mas estou a caminho. Quero poder fazer e viver aquilo que eu acredito. 
A mulher que eu sempre quis ser é batalhadora, inteligente, generosa, extremamente amorosa, competente, perseverante. Mas acima de tudo ela é humana.

Do que as pessoas não falam?
As pessoas não falam aquilo que elas realmente são. As pessoas não tem auto-critica naquilo que elas são. Ou vai achar que é Deus ou vai ser um completo idiota e viver a deriva.

O que gosta de fazer como lazer?
Música. Amo Moda. Sempre quis fazer moda. Quando terminei, na última vez que eu vi a minha mãe abrir o coração para mim, ela disse: “Se tu quiseres, agora que acabaste, eu pago-te um curso de moda e eu disse cá para mim; Voltar a fazer exames, estudar. Eu gosto de moda mas é por puro lazer.

A Patricia é uma mulher que cuida sim de si e é vaidosa a seu jeito mas eu quis saber mais de perto que jeito é esse.
Ao olhar para os produtos na casa de banho logo percebi que não tem nem usa muita coisa. Gosta de coisas especificas que realmente funcionem. Gosta de coisas que encontra facilmente
Depois de ter tido a bebé, a pele fica muito ressecada como se estivesse a estalar
Não gosta de coisas com cheiros muito fortes.
Usa Vitamina C no rosto a noite. Raramente usa maquiagem, mesmo para ir trabalhar. Pôs um pouquinho só para a nossa secção de fotografia.
Alguns dos produtos que tem conheceu no Dubai quando foi experimentar o vestido de noiva.
Para o rosto usa um produto a base de ácido hialuronico. São todas coisas que lhe foram receitadas por uma dermatologista.
Maquiagem para o dia-a-dia
Pó e corretor. Não usa Mascara para os cílios porque depois da muito trabalho para tirar. Usa um hidratante labial, algo barato na Neutrogena.

Rotina da manhã
Lava o rosto e não passa nenhum tónico depois, a seguir põe um serum, o creme. Tenta cuidar não só da pele mas da saúde e assim não tem que usar maquiagem.
De noite acho que a única coisa que usa no rosto é a vitamina C. fora isso não tem um ritual da noite.

As unhas gosta de fazer em casa. A senhora vai ao seu encontro em casa. Ela tem o seu estojo e usa sempre as suas coisas. Não gosta de vernizes foscos, gosta de vernizes com brilho.
Não gosta de unhas decoradas. Gosta de pintar com uma única cor. Nós pês opta muito por vernizes carinhos ou apenas base. Não tem um grande arsenal de cores. A mesma senhora faz as unhas das mãos, os pés e por vezes faz massagem. Gosta de fazer as massagens a cada quinze ou 20 dias, depende da semana de trabalho que tem. por vezes faz uma vez por mês. Por vezes fica mais cansada cansa mais um músculo do que outros pela natureza do seu trabalho e vai a Maison BH para fazer uma secção com uma masoterapeuta. Massagista

E como você cuida desse cabelo que várias vezes mexe com a curiosidade de tanta gente?

Quanto mais simples for, melhor. Não precisa se esconder atrás do cabelo. Lava o cabelo e faz twists, agora viu os bobs e faz os bobs como os das crianças gosta de coisas práticas e simples. Tem o cabelo seco, usa óleo de coco virgem no cabelo e mistura com a massagem.
Quando teve a bebé perdeu cabelo na frente e perdeu volume mas não se estressou com isso. A medica recomendou Hairfinity por dois meses mas acha te deve ter tido o seu efeito. Não sei notar, acredita que sim, porque tem keratina, tem vários ingredientes bons.
A filha puxa-lhe uns chumaços as vezes. A filha já a deixou ficar sem um bob. Mas ela é  bastante relaxada em relação a essas coisas. O cabelo cresce. Faz as coisas sim e cuida de si, mas sem pressão. Esta consciente que teve um filho e que com o tempo as coisas voltam para o lugar.
Agora estou com uns quilos a mais e quero perder uns 3 ou 4 quilos. Usava tamanho pequeno agora estou a usar médio. Eu estava mais magra depois de ter a bebé, mas comi o que não devia e estou consciente disto. Quando eu tiver realmente tempo isso sai em um mês. Eu gosto de correr e quando quero sei controlar a minha alimentação.
Eu digo isso porque antes não tinha essas preocupações. Eu vou trabalhar as 08: 30 e saio as 19:00 Não tenho tempo. Chego do trabalho e tenho que ficar com a bebé. Sim tem dias em que o meu marido fica com ela mas a dinâmica é diferente. E os dias em que tenho folga eu amo tanto a minha bebé que quero estar com ela. Levo ela para passear e faço coisas com ela. A minha programação gira em volta dela. Eu estou escondida por trás da bebé. E quero ter um próximo filho.

“E os quilos vão sair antes ou depois do próximo bebé?”

Eu digo que estou em operação para o próximo bebé. Quero engravidar este ano. Mas também estou a correr. Deixei de pagar o ginásio porque não ia. Eu trabalho até aos sábados e não conseguia encaixar. Quer perder alguns quilos antes de engravidar novamente.
Não teve nem estrias nem grandes manchas durante a primeira gravides. No chá de beleza falou sobre um creme que uma amiga recomendou quando eu ainda não estava grávida. E não sei se isso ajudou.
Depois de ter tido o bebé a barriga foi e eu assumo. Eu ficava sem fazer nada. Eu tinha muitas vontades e corria atras. Ia ao super mercado e comprava os ingredientes. Comprava as bases para fazer tortilha e em casa só preparava os molhos que quisesse. O Hugo não gosta de nada disso mas quando provava adorava. Eu tenho fama na clínica aonde trabalho de alguém que gosto de comer. E eu gosto de comer. Sempre gostei de comer só que antes era diferente o corpo aos trinta “absorve melhor”. Eu estou com 35 agora.

O que dirias para quem olha para ti e quer entender melhor a Patricia?
Tenha auto-critica. Viva a sua vida. A Patricia que eu sou tem que ser feliz sendo quem e aquilo que é. Já tentou fazer de outra forma e não deu certo. Foi infeliz. Se tiver que ir ao fundo do posso tem que voltar a subir e logo.

O teu legado?
Quando não estiver mais aqui, quero que as pessoas digam que fui uma grande mulher. Quero deixar um legado todo de amor, de alguém que foi apaixonada pela vida.
Deixar amor é o que me inspira, o que me da vontade de continuar.
Eu quero ver como é que eu consigo driblar isso. Ser mulher, amante, mãe, ter a minha carreira

Uma frase ou lema que a define bem?
A vida é dura para quem é mole.

Meses depois de ter ido ao seu encontro para a nossa segunda conversa soube que a Patricia estava grávida do seu segundo filho. Neste momento ela está fora do país. Foi ter o bebé e acredito que tal como ela disse na nossa última conversa; depois deste segundo bebé os seus planos de trabalho certamente já começaram a sofrer algumas alterações. Ela é assim, quando quer algo ela faz acontecer. Esta a traçar a sua carreira como uma profissional responsável e de qualidade. Alguém que entende do que faz, quer crescer e que trabalha duro para fazer bem feito. Como ela mesma disse várias vezes, o que ela tem de mais precioso é o seu bom nome e ela cuida para que continue a ter. Ela trabalha para isso. Se tiver que fazer algo então tem que fazer por gosto e tem que faze-lo muito bem feito. Conversei com ela dias antes de acabar de editar este post ela disse-me que esta num período de hibernação psicologia. No compasso de espera para o nascimento do segundo filho e só disse; “Coitadinha de ti, ter que publicar a nossa conversa… assim lembrarei das loucuras que te disse.” Essa é a Patricia que eu conheço e que faço questão de partilhar com vocês. Uma mulher alegre, bem humorada, leve mas competente, amiga, amante, mãe, maluca, profissional. A meu ver ela está a driblar tudo isso muito bem.

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Imagem tirara do instagram da Patricia

5 Comments Add yours

  1. Cidália Magalhães diz:

    Amei. Quero saber a clínica que trabalha . Ciiidaliamagalhaes24@gmail.com

    Liked by 1 person

    1. marceladeaguiar diz:

      Cara Cidália, fico muito feliz em saber disso.
      Como disse no post, no momento ela esta de licença maternidade. Mas eu vou sim falar com a Patricia e depois darei o nome da clínica.
      beijos e obrigada por visitar o blogue.

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    2. marceladeaguiar diz:

      Cidália,
      A clínica chama-se Afrodente e está localizada na Vila Alice.
      Ela estará de volta em Junho.

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  2. Andrea Sebastiao diz:

    Ahahahahhahahahahha Celaaaaaaaaaa. Que loucura foi ler a loucura que eu sou ahahahahahhaha. Sei que continuarei na graça de Deus, e tu tbm a trilhar o teu caminho. Beijo enooooooorrrme! 😍😍😍😍

    Liked by 1 person

    1. marceladeaguiar diz:

      Patricia minha querida, obrigada pela oportunidade de poder partilhar aqui um pouquinho da tua estória. 😘😘😘

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